IFMG realiza cerimônia de diplomação póstuma de Hélcio Pereira
Cerimônia homenageia o ex-aluno secundarista e reafirma memória da luta estudantil pela democracia
Diplomação Póstuma encabeçada por estudantes é evento inédito no Brasil - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz
O Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – Campus Ouro Preto, realizou na tarde de quinta-feira (5), a cerimônia de diplomação póstuma do ex-aluno Hélcio Pereira Fortes. A solenidade ocorreu no Auditório Arthur Versiani e reuniu estudantes, representantes de movimentos estudantis, autoridades públicas e familiares do homenageado.
A iniciativa foi organizada pelo Grêmio Livre Estudantil do campus, gestão “MobilizArte”, em parceria com a direção da instituição. O ato simbólico teve como objetivo reconhecer a trajetória de Hélcio, militante estudantil que teve sua vida interrompida durante a ditadura militar brasileira, além de reafirmar o compromisso da comunidade acadêmica com a memória, a democracia e os direitos humanos.
Durante a cerimônia, representantes do movimento estudantil, familiares e autoridades destacaram a importância histórica do ex-aluno e o papel da juventude na defesa da democracia.

Quem foi Hélcio Pereira Fortes
Natural de Ouro Preto, Hélcio Pereira Fortes (1948–1972) foi estudante e uma importante liderança do movimento estudantil durante o período da ditadura militar no Brasil. Ainda muito jovem, destacou-se na organização política de estudantes secundaristas e, posteriormente, na articulação com movimentos operários e organizações de esquerda que resistiam ao regime.
Ainda adolescente, ele participou do Grêmio Literário Cláudio Manoel da Costa, espaço em que iniciou sua atuação política e cultural. “Já participava ativamente do Grêmio Literário Tristão de Ataíde (GLTA), sendo um dos redatores da voz do grêmio. O grêmio funcionou como uma ponte para o seu ingresso na política estudantil secundarista.”
Aos 15 anos, Hélcio filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Após o golpe militar de 1964, que instaurou a ditadura no país, o núcleo do partido em Ouro Preto perdeu contato com a direção estadual. Nesse contexto, Hélcio tornou-se uma das principais lideranças locais na tentativa de reorganizar a militância política na cidade, atuando tanto no movimento estudantil quanto junto aos trabalhadores da região, especialmente em Saramenha, onde funcionava a fábrica de alumínio Alcan.

Perseguido pelo regime, passou a viver na clandestinidade em cidades como Belo Horizonte e Contagem. Nesse período, também teve participação nas greves dos metalúrgicos em Minas Gerais, em 1968, aproximando-se da Corrente Revolucionária de Minas Gerais. Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se integrou à Ação Libertadora Nacional (ALN), organização de resistência à ditadura.
Dentro da ALN, Hélcio assumiu posições de destaque. Após a morte do dirigente Joaquim Câmara Ferreira, em 1970, passou a integrar a coordenação nacional da organização e ficou responsável pela articulação regional no Rio de Janeiro, então estado da Guanabara.
Hélcio foi preso em 22 de janeiro de 1972 por agentes do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) no Rio de Janeiro. Em seguida, foi transferido para o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, onde permaneceu cerca de dez dias preso. De acordo com investigações posteriores e relatos de testemunhas, ele foi submetido a intensas sessões de tortura e morreu sob custódia do regime.
Na época, a versão oficial divulgada pelos órgãos de segurança afirmava que Hélcio teria morrido após um suposto confronto armado com agentes do Estado. No entanto, depoimentos e análises posteriores apontaram contradições nessa narrativa e indicaram que sua morte ocorreu em decorrência das torturas sofridas durante o período de encarceramento.
Décadas depois, testemunhos apresentados à Comissão Nacional da Verdade ajudaram a reconstruir parte do que ocorreu nos dias que antecederam sua morte. A militante Darci Toshiko Miyaki, que também foi presa pela repressão naquele período, relatou ter ouvido os gritos de Hélcio durante sessões de tortura enquanto ambos estavam detidos.
Após sua morte, o corpo de Hélcio foi enterrado inicialmente no cemitério Dom Bosco, em Perus, na cidade de São Paulo. Em 1975, seus restos mortais foram trasladados para Ouro Preto, onde foram sepultados na Igreja de São José.
Durante a cerimônia de diplomação póstuma no IFMG, sua trajetória foi lembrada como parte da história da resistência estudantil à ditadura militar e da luta pela democracia no Brasil.

Estudantes destacam legado do movimento estudantil
A abertura das falas foi conduzida por representantes do movimento estudantil do IFMG e de entidades secundaristas. Em discurso emocionado, o presidente do Grêmio Estudantil do campus, Zion Trevisani, destacou a importância simbólica da homenagem e a continuidade da luta estudantil.
Hoje eu me emociono por seguir os mesmos caminhos de Hélcio e de assumir a presidência do grêmio estudantil do IFMG Campus Ouro Preto e continuar com a sua luta
Durante o discurso, o estudante ressaltou que Hélcio teve sua trajetória interrompida pelo regime militar. “Hélcio Fortes teve a sua vida precocemente ceifada pela ditadura militar, período sombrio que assolou por anos o nosso país”, lamenta. Zion destaca ainda que a diplomação póstuma de Hélcio é um evento inédito no Brasil e, totalmente encabeçado por estudantes.
Eu tenho orgulho de dizer que a primeira diplomação póstuma secundarista do Brasil, foi feita por estudantes, foi conduzida por estudantes. Hoje, entregamos esse diploma para a família do Hélcio porque foram os estudantes que encabeçaram a reparação histórica por memória, verdade e justiça dentro dessa instituição.
Para o movimento estudantil, a diplomação representa um gesto de reparação histórica e reconhecimento da luta de gerações anteriores. “Hoje entregamos esse diploma para a família porque foram os estudantes que encabeçaram a reparação histórica por memória, verdade e justiça dentro dessa instituição", afirmou.
Os estudantes também ressaltaram que a homenagem simboliza a continuidade da luta por educação pública e democracia. “A entrega deste diploma é mais que tudo uma construção coletiva de estudantes secundaristas de 15 a 18 anos. Que hoje trilham caminhos que só são possíveis caminhar porque Hélcio Pereira Forte lutou por nós. Porque ele foi torturado e morreu para garantir que o nosso grêmio estudantil seguisse vivo.”

Irmão relembra trajetória e militância de Hélcio
Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia foi a participação do irmão do homenageado, Délcio Fortes, também ex-aluno e ex-professor da instituição, que relembrou aspectos pessoais da trajetória de Hélcio e os impactos de sua morte na família.
Ele destacou o envolvimento do jovem com a cultura e com a vida intelectual de Ouro Preto. “Hélcio gostava muito de escrever, de cinema, teatro, manifestações culturais que ocorriam na nossa cidade”, relembra
Segundo ele, Hélcio demonstrava desde cedo grande interesse intelectual e envolvimento com a vida cultural da cidade. “Hélcio sempre foi um leitor voraz. Aos 14 anos ganhou de nosso pai as obras completas de Machado de Assis, seu autor predileto e que muito contribuiu para a sua formação intelectual”, relembrou seu irmão durante a homenagem.

Délcio afirma que “o golpe militar de 64 pegou a todos de surpresa.” Ao longo do discurso, também relatou os efeitos da repressão e da violência política vividos pela família após a morte de Hélcio. “Toda essa tragédia teve repercussões negativas na saúde física e mental de toda a nossa família”, recorda.
O irmão também comentou a publicação do livro Hélcio – Alex, Toninho, Ernesto, Gomes, Nelson, Fradinho conta a trajetória política e de vida de Hélcio Pereira Fortes, sua história como militante. “Após quatro décadas de silêncio, em julho de 2016, decidi organizar um livro contando a verdadeira história do meu irmão”, relata Délcio.

Homenagem reforça compromisso com democracia
A diplomação póstuma de Hélcio Pereira Fortes foi marcada por momentos de emoção e reconhecimento da importância do movimento estudantil na história do país.
Para os organizadores e participantes, a cerimônia representou não apenas uma homenagem individual, mas também um ato de memória coletiva sobre o período da ditadura militar e sobre as lutas travadas pela juventude brasileira em defesa da democracia.
Após a entrega do diploma, foi também anunciado o lançamento do Cursinho Popular Ouro Preto - Hélcio Fortes. A iniciativa busca perpetuar o compromisso com a educação pública gratuita e transformadora na Escola Estadual Desembargador Horácio Andrade.
Representantes de entidades estudantis também destacaram a dimensão histórica da homenagem. Para Leonardo Souza, presidente da União Colegial de Minas Gerais (UCMG), a trajetória do ex-aluno continua inspirando novas gerações. “Hélcio Pereira Fortes não pertence apenas ao passado da ditadura militar. Ele pertence à história viva da juventude.”
Ao final da solenidade, estudantes destacaram que o reconhecimento reafirma a continuidade dessa trajetória. Zion afirma que “a diplomação póstuma é mais do que um reconhecimento histórico. É a afirmação de que a memória dos que lutaram não será apagada. Hélcio Pereira presente.”

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.







