Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Jesus e John Wayne: Como o Evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos

“Se, pois, alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou, Ei-lo aí! Não acrediteis, porque hão de surgir falsos cristos e falsos profetas e farão grandes sinais e prodígios, de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:23-24)

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”.

Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Júlio Vasconcelos:

O livro “Jesus e John Wayne: Como o Evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos” foi publicado em 2020 pela historiadora e professora norte-americana da Calvin University de Michigan, Kristin Kobes Du Mez.

No livro, Du Mez analisa a formação da cultura evangélica conservadora nos Estados Unidos ao longo do século XX e início do século XXI. A autora sustenta que parte significativa do evangelicalismo americano se afastou progressivamente da imagem de Jesus associada à humildade, à compaixão e ao serviço, substituindo-a por um ideal de masculinidade forte, combativa e autoritária, simbolizado culturalmente pelo ator John Wayne.

John Wayne (EUA 1907-1979) foi um dos atores mais famosos da história do cinema americano, especialmente dos filmes de faroeste e de guerra. Ele tornou-se um símbolo cultural dos Estados Unidos por interpretar personagens que encarnavam a força física, a coragem, a liderança masculina, a dureza emocional e a disposição para acabar com os inimigos através da força e da morte, dando tiros por todos os lados. No livro, Du Mez afirma que ele é apresentado não apenas como uma pessoa, mas como um símbolo cultural, sendo comparado heroicamente à figura de Jesus Cristo.

Segundo Du Mez, a ascensão desse modelo ocorreu por meio da convergência entre religião, nacionalismo, militarismo, conservadorismo moral e defesa de estruturas patriarcais. Líderes religiosos, autores, pregadores, movimentos políticos e organizações evangélicas passaram a promover a figura do homem cristão como guerreiro, líder incontestável da família e defensor da nação contra ameaças externas e internas.

A autora demonstra como esse processo se intensificou durante a Guerra Fria, quando o anticomunismo foi incorporado ao discurso religioso. Posteriormente, temas como a defesa da família tradicional, a oposição ao feminismo, a resistência aos movimentos pelos direitos civis e a valorização da autoridade masculina tornaram-se elementos centrais da identidade de muitos grupos evangélicos conservadores.

O livro também examina a influência de personalidades religiosas e políticas que ajudaram a consolidar essa visão de mundo, contribuindo para a aproximação entre setores do evangelicalismo e movimentos políticos conservadores. Nesse contexto, Du Mez argumenta que o apoio expressivo de evangélicos brancos a Donald Trump não representou uma ruptura com seus valores históricos, mas o resultado coerente de décadas de construção cultural e política.

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A tese central da obra é que o evangelicalismo conservador norte-americano não pode ser compreendido apenas como um movimento religioso. Ele se desenvolveu como um fenômeno cultural e político no qual a fé cristã foi frequentemente reinterpretada à luz de ideais de poder, nacionalismo, autoridade masculina e combate cultural. Para a autora, essa transformação produziu uma tensão entre os ensinamentos originais de Jesus e determinados valores promovidos por segmentos influentes da cultura evangélica contemporânea.

Mais do que uma crítica teológica, o livro constitui uma investigação histórica sobre os mecanismos pelos quais símbolos religiosos podem ser apropriados por projetos culturais e políticos, tornando-se instrumentos de legitimação de identidades coletivas, disputas ideológicas e formas específicas de exercício do poder.

“As tentativas de pacificação dos homens apenas os castram”, “Deus fez os homens para serem perigosos”, “Todos os homens foram feitos para exercer domínio. É essencial que os meninos brinquem com espadas e armas de brinquedo e que os mais velhos sejam treinados no uso de armas de fogo reais”. “Jesus é um rei guerreiro do UFC que cavalga para a batalha”. “Jesus é um durão espiritual vestido com uniforme militar. É hora de substituir o Jesus da escola dominical por um Jesus guerreiro." Essas aberrações, além de muitas outras, são citadas por Du Mez em seu livro como frases que foram proclamadas em discursos inflamados por líderes religiosos norte-americanos para milhões de seguidores.

É extremamente preocupante quando observamos que esse tipo de discurso encolerizante tenha contagiado milhões de cristãos espalhados pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil. Não é à toa que o discurso do ódio e as guerras estão pipocando por todos os lados...

Quem tem ouvidos, que ouça!

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