Fechado há oito anos, o Cine Vila Rica voltou a ocupar o centro do debate cultural em Ouro Preto. Na última sexta-feira (19), data em que se celebra o Dia do Cinema Brasileiro, estudantes, professores e integrantes do coletivo Audiovisual UFOP – WebCINETV UFOP realizaram uma manifestação em frente ao prédio histórico e lançaram a campanha “Cine Vila Rica - Te Quero Vivo!”, acompanhada de um manifesto público que reivindica o início das obras de revitalização do espaço e maior transparência sobre os prazos para sua reabertura.
O ato reuniu moradores, turistas e representantes da comunidade acadêmica em frente ao cinema, localizado no centro histórico da cidade. Durante a mobilização, os participantes promoveram uma ação simbólica de "abraços cinematográficos" ao prédio, transformando o gesto em um apelo coletivo pela preservação e recuperação de um dos mais importantes equipamentos culturais da Região dos Inconfidentes.
A campanha é coordenada pelo professor do Departamento de Jornalismo da UFOP, Adriano Medeiros da Rocha, por meio do coletivo Audiovisual UFOP – WebCINETV UFOP.
Oito anos de portas fechadas
O Cine Vila Rica encerrou suas atividades em 2018. Em 2022, a Universidade Federal de Ouro Preto firmou um convênio com o Governo de Minas Gerais para a revitalização completa do imóvel, com investimento previsto de R$16,5 milhões.
Segundo informações divulgadas pela campanha, cerca de R$6 milhões já foram repassados à Fundação Gorceix, responsável pelos processos de licitação, fiscalização e execução das obras. Apesar disso, as intervenções físicas no prédio ainda não começaram.
No manifesto lançado durante o ato, os organizadores afirmam que a reestruturação do cinema “não pode mais habitar o campo dos sonhos, das promessas e dos trâmites burocráticos infindáveis” e defendem a mobilização imediata da sociedade para garantir a recuperação do espaço.
Um cinema que faz parte da história da cidade
A trajetória do Cine Vila Rica se confunde com a própria história cultural de Ouro Preto. O prédio passou a funcionar como cinema em 1958, quando o antigo Liceu de Artes e Ofícios foi transformado em sala de exibição. A inauguração ocorreu com a exibição do filme Rebelião em Vila Rica, produzido na própria cidade.
Nas décadas seguintes, o espaço consolidou-se como referência para o cinema, o cineclubismo e a formação cultural da população. Também sediou atividades ligadas ao Festival de Inverno, ao Fórum das Letras e à CineOP, tornando-se um dos principais pontos de encontro entre arte, educação e cidadania da cidade.
O Cine Vila Rica se constituiu como um patrimônio de valor inestimável para a região dos Inconfidentes. Sempre foi um lugar de encontro, onde a estética e a política, o passado barroco e a vanguarda contemporânea se cruzavam
"O coração cinematográfico pulsante deste movimento"

Para Adriano Medeiros, a campanha surge em um momento de fortalecimento do setor audiovisual em Ouro Preto. “Em 2026, acompanhamos a confluência de muitas ações em prol de um objetivo comum: o desenvolvimento de Ouro Preto como polo cinematográfico e audiovisual”, afirma.
Ele cita iniciativas como a proposta de criação de um bacharelado em Cinema e Audiovisual na UFOP, o fortalecimento da CineOP, a renovação da Ouro Preto Film Commission e o crescimento do número de realizadores locais.
Neste contexto, entendemos que ter o Cine Vila Rica novamente vivo, ocupado e pulsante é fundamental. Afinal, ele tem todo o potencial de ser o coração cinematográfico pulsante deste movimento
Burocracia e risco para os recursos
Questionado sobre a demora para o início das obras, Adriano reconhece a complexidade técnica da intervenção em um imóvel tombado, que exige acompanhamento de diversos órgãos, entre eles o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Por outro lado, o professor alerta para os riscos da continuidade da paralisação. “A morosidade do processo e a não conclusão das etapas dentro dos prazos previstos podem levar, inclusive, à necessidade de devolução dos recursos já disponíveis ou à não liberação de novos repasses que ainda deverão ser feitos pelo Governo de Minas Gerais”, afirma.
Perda cultural e social
Na avaliação do professor, os prejuízos provocados pelo fechamento do Cine Vila Rica vão muito além da ausência de uma sala de exibição. “A cidade e a região perdem em diversos aspectos. Inicialmente, temos a perda de um excepcional espaço de diálogos, trocas e convivências”, pondera.
Ele destaca que Ouro Preto mantém fechado um dos principais equipamentos culturais de seu centro histórico. “Estamos falando de uma sala de cinema de rua, que por si só já é símbolo de resistência, mantida lacrada, tomada pela poeira, pelas chuvas e pelo mofo.”
Segundo Adriano, a população perde um espaço de lazer, entretenimento, formação cultural e preservação da memória coletiva.
A população regional perde muito de suas memórias afetivas, do seu pertencimento. Também deixamos de ter o espaço coletivo para a imersão cotidiana na sétima arte, para o cineclubismo, para a formação de público e para tantos projetos de popularização do cinema brasileiro, latino-americano e independente.
Memórias que permanecem vivas
Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos organizadores durante a manifestação foi o envolvimento emocional das pessoas com o antigo cinema. “Fiquei muito impressionado com o quanto este patrimônio é vivo nas mentes e corações da população de Ouro Preto e região”, relata Adriano.

Segundo ele, dezenas de pessoas compartilharam histórias ligadas ao espaço durante a ação. “Entre um abraço e outro, tive a oportunidade de conhecer diversas histórias de pertencimento ligadas a este rico patrimônio. Todas elas tinham um elemento em comum: a memória afetiva muito efervescente e ativa.”
A estudante de Artes Cênicas e bolsista do projeto WebCINETV UFOP, Érica Martinez, também se emocionou com os relatos.
“Percebi que estávamos tocando algo muito maior do que uma campanha pela reabertura de um cinema. Em cada abraço, era possível sentir o carinho, a saudade e o pertencimento que as pessoas ainda têm por aquele espaço”, conta.
Uma senhora nos contou que frequentava o Cine Vila Rica desde criança e disse, com os olhos brilhando, que ainda tinha seu lugar marcado no cinema.
Um cinema acessível e democrático
Além de reivindicar a retomada das obras, o manifesto também propõe uma reflexão sobre o futuro do equipamento cultural. A expectativa dos organizadores é que o Cine Vila Rica retorne com uma programação diversa, acessível e voltada para diferentes públicos. “Nossa expectativa é acompanharmos a futura reabertura do Cine Vila Rica como uma sala realmente acessível e inclusiva”, afirma Adriano.
Ele defende uma programação que vá além do circuito comercial e contemple o cinema independente, o cineclubismo, mostras temáticas, atividades formativas e projetos de extensão.
Mobilização permanente
Embora a cobrança pelo início das obras seja um dos resultados esperados, Adriano afirma que o foco principal da campanha é construir uma mobilização coletiva em defesa do cinema. “Nosso maior objetivo é unir pessoas e vozes em torno deste objetivo comum: o cuidado para com o Cine Vila Rica.”
Segundo ele, a campanha está apenas começando e que estão iniciando uma mobilização que pode representar a união de diversos agentes da sociedade para reivindicar a revitalização do prédio e a “continuidade de sua destinação para o fomento das artes, especialmente do cinema e do audiovisual”.
Ao final do manifesto, o tom é de cobrança, mas também de esperança.
“O Cine Vila Rica foi e será arte, resistência e integração. Que as portas voltem a se abrir. Que os projetores voltem a iluminar. Que esta tradicional sala de cinema de rua volte a ser viva, ocupada e pulsante.”
E a frase que dá nome à campanha resume o sentimento que uniu manifestantes, artistas, estudantes e moradores diante do prédio fechado há oito anos:
“Afinal, Cine Vila Rica – te quero vivo.”
Acesse ao conteúdo da campanha em prol do Cine Vila Rica através do link


