Onze anos após o rompimento da barragem de Fundão, a saúde pública voltou a ocupar o centro do debate sobre reparação nos territórios atingidos da bacia do Rio Doce. Em um Centro de Convenções lotado por representantes de comunidades, conselheiros de saúde, lideranças quilombolas, prefeitos e autoridades federais, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou nesta quinta-feira (11), em Mariana, um novo pacote de investimentos voltado aos municípios impactados pelo desastre.
O anúncio inclui o repasse de R$ 243 milhões para os planos de ação em saúde dos 49 municípios contemplados pelo Programa Especial de Saúde do Rio Doce (PES-Rio Doce), além disso, foi assinada a autorização de R$ 284 milhões para a construção do Hospital Universitário de Mariana e a entrega de 70 veículos destinados ao transporte de pacientes, atendimento de urgência e fortalecimento dos Conselhos Municipais de Saúde.
Ao longo da cerimônia, o discurso predominante foi o de que a reparação não será capaz de apagar os impactos do rompimento, mas pode deixar estruturas permanentes para as próximas gerações. "Estamos cuidando da saúde dessa população que foi afetada por um crime bárbaro, um crime ambiental gravíssimo", afirmou Padilha durante o evento.
Da tragédia ao investimento permanente
Os recursos anunciados fazem parte da repactuação firmada em 2024 entre o Governo Federal, estados e empresas responsáveis pelo desastre-crime. Segundo o ministro, o novo acordo ampliou significativamente os valores destinados à saúde.
O presidente Lula se recusou a assinar aquele acordinho que estava sendo proposto. Conseguimos um acordo que colocou 16 vezes mais recursos para a saúde

De acordo com o Ministério da Saúde, mais de R$12 bilhões serão destinados ao setor nos próximos anos. Parte desse valor será aplicada imediatamente em obras, equipamentos e contratação de profissionais. Outra parcela permanecerá em um fundo permanente destinado à manutenção dos serviços criados a partir da reparação.
A ampliação de equipes, construção de unidades de saúde, fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), aquisição de equipamentos e ampliação do acesso a especialistas estão entre as prioridades previstas.
Hospital para além de Mariana

Um dos momentos mais celebrados da cerimônia foi a assinatura que autoriza a construção do Hospital Universitário de Mariana, vinculado à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A futura unidade deverá contar com 225 leitos, centros cirúrgicos, UTIs adulta, pediátrica e neonatal, além de atendimento especializado em áreas como oncologia, cardiologia, neurologia e nefrologia.
Para o prefeito Juliano Duarte, o hospital representa um legado construído a partir de um dos momentos mais difíceis da história da cidade. "Mariana precisava deixar alguma coisa para as futuras gerações. Esse hospital vai salvar vidas, trazer desenvolvimento e mudar a realidade da saúde de toda a macrorregião", afirmou.
O presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), Artur Chioro, destacou que o projeto nasce de um contexto de sofrimento, mas aponta para uma nova perspectiva para a região. "É um hospital que nasce da tragédia, mas aponta para um tempo de esperança."
Transporte para quem está longe

Além dos anúncios financeiros, a cerimônia também marcou a entrega simbólica dos veículos destinados aos municípios atingidos. A frota inclui ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), ambulâncias para transporte de pacientes, vans destinadas ao Tratamento Fora de Domicílio (TFD) e veículos para os Conselhos Municipais de Saúde.
Após o encerramento dos discursos, os participantes seguiram para a área externa do Centro de Convenções, onde os veículos ficaram expostos. Para representantes das comunidades, os automóveis respondem a uma demanda antiga dos territórios, especialmente das áreas rurais.

Carlos Eduardo Mendes, diretor-presidente da Comunidade Terapêutica Sementes do Amor, que oferece acolhimento e acompanhamento a pessoas com dependência química, lembrou que a falta de transporte adequado já trouxe consequências graves para moradores da região.
Tivemos casos de pessoas que vieram à óbito, que não conseguiram atendimento a tempo por falta de transporte. Esse investimento ajuda principalmente quem está em situação de maior vulnerabilidade
A expectativa é que os novos veículos facilitem o deslocamento de pacientes para consultas, exames, tratamentos oncológicos e procedimentos especializados realizados fora dos municípios de origem.
Controle social fortalecido
O fortalecimento dos conselhos de saúde também apareceu como uma das principais marcas do evento. Além dos veículos, os conselhos receberam notebooks, webcams, equipamentos de som e projetores para auxiliar no acompanhamento das ações financiadas pela repactuação.

Representante do Conselho Municipal de Saúde de Mariana, Aida Ribeiro Anacleto avaliou que os equipamentos representam um reconhecimento do papel desempenhado pelos conselheiros na fiscalização dos recursos.
Muitas vezes nosso trabalho fica limitado pela falta de estrutura. Esses equipamentos fortalecem o controle social e a participação da sociedade civil.
A presidente do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, Lourdes Machado, e outros representantes do colegiado acompanharam o evento, reforçando a importância da participação popular na definição e fiscalização dos investimentos.
Saúde como reparação

Entre prefeitos, conselheiros, representantes quilombolas e moradores atingidos, havia uma percepção compartilhada: embora nenhuma obra ou investimento seja capaz de reparar completamente as perdas causadas pelo rompimento da barragem, a ampliação do acesso à saúde pode representar uma das transformações mais concretas deixadas pelo processo de reparação.
"Que a vida no território, principalmente na área rural, fique um pouquinho mais amena com a chegada dos recursos, dos equipamentos e das equipes", resumiu a representante quilombola Dayane Cristina de Paula Estanislau.
Onze anos após a lama percorrer a bacia do Rio Doce, o desafio continua sendo fazer com que os bilhões anunciados em auditórios se transformem em consultas, cirurgias, transporte e atendimento para quem vive diariamente as consequências do desastre. “A reparação jamais será completa. Mas precisamos minimizar os danos e garantir que esses recursos cheguem a quem mais precisa", concluiu o deputado federal Rogério Correia.


