Na manhã do sábado (24), aconteceu a conferência “Da criação à circulação: música, direitos e futuros possíveis”, organizada pelo MARTE - Festival, a ocasião reuniu os convidados Carol de Amar, Cláudio Fraga e Marcelo Falcão.
Mediada por Bernardo Fabris, professor do departamento de música da Universidade Federal de Ouro Preto, a discussão girou em torno do uso da inteligência artificial (IA) no processo de criação das canções. O evento ocorreu na Casa Câmara, em Ouro Preto, que foi chamada de “Marte Lab” e destinado como espaço para conferências do festival.
A regulamentação do uso de IA na produção musical
O convidado Marcelo Falcão, ex-diretor da Universal Music, abriu a discussão sobre a IA colocando em questão o selo que deveria vir acompanhando as músicas que contam com a inteligência artificial na sua produção. “Eu acho que a IA tem que ter um carimbo, que nem tem o carimbo do maço de cigarro. Que aí quem não quer escutar, não ouve e vai para outra. É uma maneira.”, afirma Marcelo.
Carol de Amar, cofundadora da A Macaco - produtora de eventos e músicas, dá continuidade à fala de Marcelo e afirma que o “gargalo” sobre a IA no processo musical, está na forma da utilização na criação de canções e, não na forma como será distribuído.
Então, acho que o gargalo que a gente tá vivendo talvez esteja mais nesse lugar bem confuso de composição por IA, gravação de voz por IA e tudo mais. Partindo do pressuposto de que a criação de que a própria IA busca referências e a base de outros autores existentes. Ela traz uma composição da forma como o prompt tinha pedido, mas com base e referência em outras criações que deram certo. E aí uma pessoa pega aquilo e grava, às vezes até coloca voz de IA também e distribui.

No desenrolar da conferência, a regulamentação da produção por IA, o “carimbo” que Marcelo mencionou, entrou em cena de novo. O diretor conta que já existem reuniões entre a União Brasileira dos Compositores e o Congresso para discutir uma lei. Apesar da discussão vigente, Marcelo demonstrou preocupação em saber como fica a participação da IA.
Porque no final ela usa a obra de um autor e faz uma obra nova, ela vai ficar com quanto nisso? Isso é uma discussão grande. Quando tem um sample da música de alguém, você dá uma participação 10%, 15%, 20%, tem gente que cobra até mais. Então é muito importante, acho que o mais importante é isso. É o direito do autor ser preservado ao máximo possível, porque afinal ele que criou, ele é o criador. Máquina não cria, máquina copia.

Carol completou a fala de Marcelo trazendo a perspectiva de que estamos vivendo um “hiato” na legislação brasileira durante esse período, ela explica que, enquanto as leis ainda não foram criadas, a tecnologia avança e sai na frente no mercado. A cofundadora acrescenta que a IA já era usada em processos musicais, mas que o uso que a inteligência faz a partir de composições e criações de terceiros já é “mais intenso”.
Claudio Fraga, criador do Tubarão Martelo - animação voltada para o público infantil, trouxe a visão de que a IA pode otimizar o trabalho do animador e músico, mas somente se feita de maneira respeitosa ao processo e não sendo usada como em todo processo de produção. Segundo Claudio, ele acredita que trabalhos “sérios e verdadeiros” ainda vão conseguir se destacar, mas também encara a realidade como um desafio.

No final, os convidados a imaginar como será a definição do atual momento musical daqui 10 anos ao responder: “Qual será o estilo musical que marcou 2026?”. No geral, as respostas não se mostraram muito otimistas sobre o cenário, ao mesmo tempo, muito animadores em enxergar saídas em artistas que criam respeitando a sua essência.



