No Paço da Misericórdia, em Ouro Preto, roupas, tecidos e histórias se encontraram durante a oficina “Upcycling - Um Sol para Cada Um”, realizada como parte da programação do Festival de Inverno da UFOP (FIU).
Conduzida pelo figurinista e artista Jackson Henrique dos Santos Junior e pela designer e artesã têxtil Greice Sampaio, a atividade propôs transformar peças esquecidas em novas criações a partir de costura, customização, colagem, desenho e pintura.
Da agulha ao ponto

A oficina começou com uma roda de conversa. Antes de colocar a mão na massa, os participantes foram convidados a lembrar do primeiro contato que tiveram com a moda e com o universo têxtil. As respostas rapidamente se misturaram a histórias familiares.
“Minha referência têxtil é igual à de todo mundo aqui, né? As mulheres. Minha mãe, minha vó”, contou a artista plástica Iolanda Leiko. Em outro momento, uma participante comentou que a organização do espaço a fez lembrar da casa da avó há cerca de 50 anos. Entre lembranças e lágrimas, a conversa deu início à proposta de criação coletiva.
Para Greice, essa troca era justamente um dos objetivos da atividade. A oficina surgiu de uma inquietação compartilhada por ela e Jackson sobre a falta de espaços de criação coletiva voltados à moda em Ouro Preto.
“É um processo até a gente chegar aqui. Eu e o Jackson sentíamos falta de um espaço de criação coletiva para os profissionais da moda, dentro da linha de produção de moda de Ouro Preto”, explicou. A proposta, segundo ela, parte das demandas do território, das urgências climáticas e das diferentes realidades sociais.
A dinâmica seguiu a mesma lógica. No chão do espaço, dois grandes papéis receberam palavras escolhidas pelos participantes para representar a coleção que seria construída ao longo do dia. Entre elas estavam “natureza”, “conforto”, “transformação”, ao mesmo tempo que coexistiam diversos paradoxos, como “geometria” e “assimetria” e até mesmo “reconstrução” e “desconstrução”.

As palavras acompanhavam as peças trazidas pelos participantes e as histórias por trás delas. A ideia era que, ao final da oficina, tudo se transformasse em uma coleção inspirada na amada cidade de Ouro Preto.
Antes da etapa prática, os oficineiros também apresentaram questões relacionadas à indústria da moda, ao consumo e à sustentabilidade. Um dos dados discutidos foi o volume de água necessário para a produção de uma calça jeans, estimado em cerca de mil litros.
Da malha ao tecido
Depois de tanta preparação e de um intervalo de almoço em que a liberdade criativa foi servida de sobremesa, começaram os cortes, costuras, amarrações e intervenções. A experiência reuniu pessoas com diferentes níveis de familiaridade com a moda, havia quem já dominasse agulha e máquina de costura, quem estivesse experimentando essas ferramentas pela primeira vez ou até mesmo quem morresse de medo.

Para Isabel Ferreira Cristina, a experiência foi uma oportunidade de se arriscar novamente. “Foi inesquecível. Só tinha me arriscado em amarração uma vez só, tentei hoje de novo e eu amei. Isso aqui não tem preço”, contou.

As peças também ganharam novos significados. Uma delas, segundo uma participante, passou a representar a possibilidade de olhar para o passado de outra maneira. “É uma construção, porque estou fazendo isso aqui a partir de agora, com mais liberdade, com mais alegria, com mais cor.”
A atividade também acabou aproximando os participantes. Élida Gontijo Goulart saiu da oficina com uma nova peça e uma nova amizade. “Eu peguei esse pedaço de pano para terminar e ela pegou outro para fazer uma outra peça pra mim. Foi muito importante esse evento por isso. Estou muito feliz de ter vindo, participado, mas principalmente de ter conhecido todos vocês”, se emocionou.

A inspiração em Ouro Preto apareceu não apenas nas palavras escolhidas, mas também nas formas e cores que surgiram durante a criação. Para a estudante Maria Eduarda Silvestre, a coleção lembrava especialmente o Carnaval da cidade. “Desde que eu li as palavras, eu lembrei inclusive do Carnaval de Ouro Preto. Tem tudo isso no Carnaval”, comentou.
Ao longo do dia, peças foram desmontadas, reconstruídas e ressignificadas. Para Greice, o processo mostrou que o upcycling pode ir além da transformação de materiais.
É sempre uma surpresa o que vai acontecer. E surpreendeu muito positivamente. Acho que todo mundo se envolveu muito, se reconstruiu, assim como reconstruiu as peças. Desapegou de coisas, de pensamentos também, para abrir espaço para novas narrativas na moda
A oficina também pode ser o início de novos projetos. Segundo a designer, ela e Jackson já estudam ampliar a proposta para cursos e atividades com duração maior. A procura dos próprios participantes reforçou essa possibilidade. “Todo mundo que veio para a oficina falou sobre essa necessidade. Então a gente vê que o pessoal quer mesmo. Vamos nos estruturar para outros momentos”, afirmou.
Entre tecidos, memórias e novas formas, a proposta terminou com uma coleção construída coletivamente e com peças que passaram a carregar para além de um novo visual, histórias e uma memória marcada para quem resolveu passar um sábado qualquer no Paço da moda, da memória, da liberdade e da Misericórdia.





