Mariana (MG), 18 de junho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Pontos em comum entre Legião Urbana e Racionais Mc´s

Os textos publicados na seção “Colunistas” não refletem as posições da Agência Primaz de Comunicação, exceto quando indicados como “Editoriais”

Montagem em preto e branco reúne integrantes das bandas Legião Urbana e Racionais MC's. Em primeiro plano aparecem jovens músicos da Legião Urbana em fotos dos anos 1980, enquanto ao fundo os integrantes dos Racionais MC’s surgem usando óculos escuros, em retrato contemporâneo de forte contraste. A composição destaca o encontro simbólico entre o rock brasileiro e o rap nacional.

Fotomontagem: Lui Pereira/Agência Primaz

Ouça o áudio de "Pontos em comum entre Legião Urbana e Racionais Mc´s", de Cláudio Coração:

Renato Russo (1960-1996) era fã dos Racionais Mc´s. Em várias entrevistas, o líder e compositor da Legião Urbana fazia questão de afirmar o papel poético-transgressor do grupo paulistano de rap. Em uma espécie de projeção de leitura ética do mundo, Renato se identificava com a poesia dos Racionais, em espelho com princípios artísticos buscados por ele na Legião. Parecia haver, nessas entrevistas, uma tentativa de aproximação, por mais que ambos os grupos soassem, nos anos 1990, distantes.

Os integrantes dos Racionais, todos eles (Mano Brown, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue), também já comentaram sobre o impacto da Legião Urbana na cena musical desde os anos 1980, e sobre como o grupo de Brasília mobilizava uma ideia de estilo para a juventude periférica de então, especialmente a audição dos discos seminais Legião Urbana (1985) e Dois (1986), ambos produzidos com a clássica formação original: Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá. 

KL Jay chamou a atenção, em entrevista a Ronald Rios, para a força das bases pós-punk da Legião (em canções como “Será”, “Ainda é Cedo” e “Índios”) na apropriação dessa musicalidade em bailes black; Ice Blue comentou, no podcast B3 em que participava, sobre a postura sincera de Renato a compor a veia artística da Legião e o papel de Dado como produtor musical no universo independente; Edi Rock e Mano Brown (os principais compositores dos Racionais) verbalizaram, algumas vezes, a importância das letras longas de Renato em canções como “Faroeste Caboclo”, “Metal Contra as Nuvens” no jogo de referências das composições de “Homem na Estrada”, “Tô Ouvindo Alguém me Chamar”, “Mágico de Oz”.

Se estendermos a relação do rap paulistano e da chamada “família RZO”, grupo extensivo aos Racionais, com nomes como RZO, Consciência Humana, Posse Mente Zulu etc., as vinculações do Movimento Hip Hop brasileiro com o rock nacional da “geração 80” identificam a Legião Urbana como emblema maior. Nesse contexto, o grupo santista Charlie Brown Jr e seu líder Chorão (1970-2013) são os principais mediadores entre o rock e o rap, com a elaboração estética firmada por Chorão com a “família RZO”, a evocar o significado e o lugar dos Racionais e da Legião na cultura jovem e urbana. Em toda a discografia do Charlie Brown, as fusões do rap com o rock se estabeleciam como “música de formação”. Como exemplo dessas fusões, “Baader-Meinhof Blues”, da Legião, chegou a ser gravada pelo grupo no álbum Bocas Ordinárias (2002) em aproximação com as jams estabelecidas na vibração estética das participações da “família RZO” no mesmo disco, em referência mais direta a Sabotage (1973-2003), outro rapper tributário dos Racionais e fã da Legião Urbana. É como se, naquele momento, todos entoassem, com a regência de Chorão, que: “revolução na sua mente, você pode, você faz, quem sabe mesmo é quem sabe mais”.

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Guardadas, evidentemente, as diferenças de origem (rap e rock; periferia e classe média, respectivamente) entre Racionais Mc´s e Legião Urbana, enumeramos sete pontos comuns relevantes entre os grupos:

  1. O tom messiânico: canções compartilhadas com o público na chave de princípios de como se levar a vida com dignidade;
  2. A idolatria dos fãs: enormes comunidades refletidas em cada gesto dos artistas;
  3. As letras extensas e multi referenciais: o desconcerto da canção-pop padrão transformando a própria canção-pop contemporânea brasileira;
  4. A rejeição à padronização dos meios de comunicação: a recusa em participar (literalmente) dos processos de manipulação e alienação cultural da indústria de espetáculo;
  5. A erudição sobre gêneros musicais: conhecimento pleno pelos integrantes (principalmente, Renato e Mano Brown) das linhas evolutivas do rock, do rap e da música popular;
  6. A conceituação e a demora em lançar discos: o processo criativo elevado à condição da reflexão da própria obra; por isso, os longos intervalos de um disco para o outro;
  7. Os shows tensos: em torno deles toda uma atmosfera resumidora dos itens anteriores, em catarse coletiva.

Pegando carona nisso, e resgatando acontecimentos traumáticos, os pontos comuns expostos também revelam pontos de virada. Assim, como não associar as atribulações de mudança radical (estética e poética) da Legião Urbana, após o show da banda no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 30 de junho de 1988 (com o saldo de centenas de feridos e quebradeira geral) com as atribulações de mudança radical (estética e poética) dos Racionais, após o show no Ecletic Hall, em Bauru, em 23 de janeiro de 2005 (com o saldo de uma morte, feridos e quebradeira geral)?

Dois documentários, Rock Brasília (2011), de Vladimir Carvalho, e Das Ruas de São Paulo Pro Mundo (2022), de Juliana Vicente, tratam dessas duas experiências traumáticas, à luz da transformação e dos pontos de virada definitivos sobre o porvir das obras a partir dos eventos, expostos na reflexão “o que estamos fazendo para que isso esteja acontecendo, assim, de modo tão virulento?”.

Diante disso, é razoável concatenar que o disco Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002), dos Racionais, é concebido por meio da reelaboração de rotas. Assim como o disco As Quatro Estações (1989), da Legião Urbana, também é engendrado pela reconstrução.

Portanto, esses pontos de virada, em torno desses álbuns citados, estabelecem ainda relações significativas das bandas com a vida nacional, com a descrição aguda de um tempo, esse mesmo que possibilitou/possibilita a afeição das obras e das vidas envolvidas, em meio a traumas e superações. Dessa maneira, salientamos e completamos a devida produção de sentido: Que País É Este (1987) está para Sobrevivendo no Inferno (1997) assim como As Quatro Estações (1989) está para Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002) assim como V (1991) está para Cores e Valores (2014). 

Renato Russo morreu no dia 27 de março de 1996. Vítima do HIV. É bom lembrar de uma cena de seu funeral, captada por emissoras de tevê, quando a cantora e compositora Marina Lima diz algo assim: “Renato foi uma das pessoas mais bonitas que conheci na vida, foi o mais especial de nossa turma”. A despeito da circunstância da dor, e da condolência ao ídolo que partiu cedo, a reflexão de homenagem de Marina meio que apruma o encontro/complemento da música “Love in the Afternoon” (“é tão estranho, os bons morrem jovens...”) com “Capítulo 4, Versículo 3” (“27 anos contrariando a estatística...”).  Quando ela grava com Mano Brown no EP Motim (2021) a música “Nóis”, esses elementos de união se entrosam em outras tantas elaborações, mais solares e esperançadas, também um gesto de lembrança a Renato e à Legião. 

Como registro das esperanças em perspectiva, pensemos Mano Brown à frente do exitoso podcast Mano a Mano (no ar desde 2021), as festas cultuadas de KL Jay, as parcerias de Edi Rock com Seu Jorge etc. Ou seja, não há como imaginar as transformações e êxitos (sociais e culturais) das últimas décadas, sem se deparar, também, com a afirmação da força da arte, um pouco como nos termos trabalhados poeticamente por Renato Russo na canção “Perfeição”: “Venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta, chega de maldade e ilusão; venha, o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera, nosso futuro recomeça, venha, que o que vem é perfeição

Esse transitório e necessário “estado de perfeição” se embala, aqui e agora, em 2026, com adolescentes escutando a canção “Tempo Perdido”, de quarenta anos atrás, em sentido de urgência e de convívio. Em gesto próximo das bases de resistência estabelecidas pelos Racionais, essas que transformaram o cancioneiro do país, como Renato Russo gostava de destacar.

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