Projeto Walls ameaça captação de água de Antônio Pereira e Alvorada
Durante visita técnica, diversos questionamentos foram apresentados ao consultor da mineradora, audiência pública irá debater impacto do projeto
Visita técnica sobre as instalações do Projeto Walls mobiliza comunidade do Bairro Alvorada, técnicos e membros do CODEMA de Mariana. - Foto: Joyce Campolina/Agência Primaz
Na manhã da última quinta-feira (5), representantes do Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente de Mariana (Codema) realizaram uma visita técnica à área prevista para a implantação do chamado Projeto Walls, empreendimento de mineração que busca uma Declaração de Conformidade com os conselhos de Mariana e Ouro Preto. A vistoria, prevista desde a reunião realizada em 16 de dezembro de 2025, deveria ter ocorrido em janeiro, mas acabou sendo realizada apenas nesta semana.
O encontro reuniu conselheiros, técnicos e moradores diretamente afetados pelo projeto. O empreendimento prevê a extração de minério de ferro em uma área de cerca de 14 hectares localizada entre os municípios de Mariana e Ouro Preto, com produção estimada de até 300 mil toneladas por ano durante aproximadamente uma década.
Se, por um lado, os representantes do projeto defenderam a viabilidade ambiental da mineração, por outro, moradores do bairro Alvorada e da região de Antônio Pereira apresentaram questionamentos contundentes, especialmente sobre recursos hídricos, impacto visual e falhas na comunicação com a comunidade.
Visita começou longe do ponto marcado

A visita foi conduzida pelo consultor ambiental do empreendedor, Anderson Aguilar, ex-secretário municipal de Meio Ambiente de Mariana. Participaram da vistoria representantes do Codema em número reduzido, entre eles Mariana Lima Moura, do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Moisés Carvalho Reis, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, além de Antônio Mauro, representante da Secretaria Municipal de Diversificação Econômica, Tecnologia e Inovação, além de um representante da Secretaria de Desenvolvimento Rural.
Inicialmente, o encontro havia sido combinado com moradores para ocorrer no mirante da Estrada da Purificação, nas proximidades do bairro Alvorada, comunidade que pode ser diretamente afetada pela mineração. No entanto, a vistoria com os conselheiros teve início em um ponto próximo ao distrito de Antônio Pereira, distante da Área Diretamente Afetada (ADA) e do local combinado previamente.
Durante o percurso, Aguilar apresentou os principais elementos técnicos do empreendimento, detalhando estudos ambientais, questões relacionadas ao visagismo da paisagem, impactos sonoros e o comportamento das águas subterrâneas na região.
Segundo o consultor, o projeto foi estruturado de forma a evitar impactos significativos e não prevê etapas consideradas mais agressivas da mineração. “É uma operação seca. Não teremos unidade de beneficiamento, barragens de rejeitos, detonações ou britagem. O minério será retirado mecanicamente e transportado bruto para usinas próximas”, explicou.
Patrimônio arqueológico como eixo do projeto
A área onde pretende-se minerar, é rica em vestígios arqueológicos, são mais de 10 sítios próximos da ADA do empreendimento e no local onde existe o projeto de construção de uma estrada de escoamento, que seria construída sobre uma estrada histórica.
Uma das principais justificativas apresentadas pelo ex-secretário Anderson Aguilar diz respeito à preservação do patrimônio histórico existente na região. De acordo com o consultor, a estrada de escoamento inteira seria construída dentro do Sítio Arqueológico Fazenda Romão X, uma antiga estrada utilizada por tropeiros e garimpeiros durante o ciclo do ouro.
A região guarda vestígios do século XVIII, como muros de contenção, galerias e estruturas históricas. De acordo com Anderson, os estudos foram analisados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que teria aprovado o traçado do projeto. “A arqueologia foi o que definiu o projeto. Foi o patrimônio que determinou onde a mina poderia ou não avançar”, afirmou.
Os projetos de licenciamento arqueológico constam no Sistema Eletrônico de Informação (SEI), do IPHAN com os números 01514.001147/2020-41 e 01514.001149/2020-31, nos dois casos sem um parecer final de aprovação. Encaminhamos um pedido de esclarecimentos para o IPHAN, ainda sem respostas.
Impacto visual vira ponto de divergência
Um dos pontos mais debatidos durante a visita foi o impacto visual do empreendimento. Segundo Aguilar, a geometria da cava e a presença de morros naturais funcionariam como anteparos capazes de impedir que a mina seja visível a partir do bairro Alvorada ou da Estrada da Purificação. “A própria topografia protege a paisagem. A comunidade não verá a operação”, afirmou. No entanto, tal afirmação vai contra inclusive ao próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA), feito a pedido do empreendedor. O documento denominado EIA Vol.3, declara que os impactos visuais são de “alta magnitude e importância, permanente e irreversível”.

A declaração gerou a reação imediata de moradores presentes no local, quando Anderson explicou o que ja havia dito anteriormente para os conselheiros do CODEMA. Para eles, a afirmação não condiz com a realidade da região. “Quem mora no Alvorada consegue ver sim. É impossível não ver”, rebateu Anderson Silva, representante dos moradores durante a visita.
Quando o grupo chegou a um ponto mais próximo da área diretamente afetada, representantes da comunidade afirmaram que a mineração seria visível não apenas do Alvorada, mas também de partes de Antônio Pereira e do distrito de Novo Bento Rodrigues. “Ali ó, aqui é o bairro Alvorada, ali Antônio Pereira e bem ali tem o Novo Bento, daquele ladinho ali, tem um restinho de Mariana. Todo mundo ia conseguir ver e olha que falam muito do turismo na região”, afirmou o representante dos moradores.

A afirmação de Anderson encontra respaldo nos estudos de visagismo realizados, como trata-se de um local de topo de morro, não há barreiras significativas que resguardem a vista da mineração.
Região de alta biodiversidade
Outro tema levantado durante o processo de licenciamento diz respeito à biodiversidade da região. Durante reuniões anteriores do Codema, a pesquisadora e doutora em botânica Lívia Echternacht havia alertado que a área onde se pretende instalar a mina está inserida em uma região considerada megadiversa do ponto de vista botânico.
Entre as espécies registradas estaria a Aristolochia marianensis, conhecida popularmente como “papo-de-peru”, planta endêmica e ameaçada de extinção e que leva o nome do município de Mariana.
Aguilar contestou a gravidade da situação durante a visita técnica. Segundo ele, os estudos realizados para o licenciamento não identificaram confirmação de que a espécie seja endêmica da área ou que esteja oficialmente ameaçada de extinção. “Até queria que tivesse alguém da biologia aqui para me contrariar”, brincou.
Entretanto, no EIA do empreendimento estão listadas 2.348 espécies de plantas vasculares na Área de Estudo Regional, o que representa quase 6% das espécies do Brasil. Dentre estas, estão inclusas 42 ameaçadas de extinção, sendo 5 Criticamente Ameaçadas, 28 Em Perigo e 9 Vulneráveis.
De acordo com um relatório produzido pelo Observatório Sócio-ambiental pela Conservação, o OBSERVA, apresentado durante a reunião do CODEMA do dia 16 de dezembro, há falhas graves no que diz respeito às metodologias utilizadas para a construção do estudo de impacto.
Para os pesquisadores, um dos motivos da Aristolochia marianensis não ter sido identificada está relacionada ao momento de florescimento da espécie (entre novembro e fevereiro), as coletas do ElA foram realizadas em outubro, A espécie também não consta na lista de dados secundários, pois o EIA não teria consultado a principal referência científica para distribuição da flora, que são os herbarios, tampouco teria consultado taxonomistas especialistas para identificação das espécies.
Ainda segundo os especialistas, “esta planta tem ocorrência em altitudes que abrangem a região do Projeto Walls, ocorre na Área de Estudo Regional e potencialmente também na Área Diretamente Afetada. A sobrevivência da espécie poderia ser comprometida com a expansão da indústria minerária na Serra de Ouro Preto. Certamente é do interesse do município de Mariana que sejam assim realizadas pesquisas aprofundadas para evitar a extinção da espécie que leva seu nome”.
Outro ponto a ser considerado é que o consultor Anderson Aguilar, ex-secretário do meio ambiente de Mariana, levou consigo o plano diretor de Ouro Preto, durante visita com representantes do CODEMA de Mariana, para justificar que a área poderia ser objeto de mineração.
O relatório do OBSERVA é claro ao afirmar que de acordo com Lei complementar 228/2022 - PIano Diretor do Município de Mariana, a área do empreendimento dentro do território do município é classificada como “Zona de Conservação Ambiental” e “Area Especial, categorizadas pelos incisos IX - área de Predisposição ao Risco (APR) e X - Área de Conservação do Patrimônio Cultural e Ambiental (ACP); do Art. 74”.
Portanto, ao trazer a legislação do município vizinho para a discussão, foi objeto de estranheza pelos presentes na visita.
Acesso à água em risco
Quando o tema voltou à questão hídrica, o consultor do empreendimento e ex secretário afirmou que estudos hidrogeológicos indicam que a mineração não afetará o Aquífero Cauê, um dos sistemas subterrâneos importantes da região.
Segundo ele, pesquisas com traçadores ambientais, incluindo análises de trítio, indicam que parte da água que aflora atualmente na região é resultado de infiltrações ocorridas há cerca de 150 anos. Na interpretação apresentada pelo consultor, a cava da mina não seria capaz de interromper o processo de recarga do aquífero. Ironicamente, o estudo utilizou as métricas de 3 a 5 metros de profundidade dentro da ADA. “Que mineração que você conhece que possui 5 metros de profundidade”, questionou um dos moradores.
Os presentes seguiram contestando a análise técnica e afirmaram que os estudos não refletem a dinâmica real da água no território. Eles apontaram que uma das estradas planejadas para a operação da mina passaria justamente por áreas onde existem cursos d’água utilizados para abastecimento local. “A nossa captação de água é justamente aqui… a estrada vai cortar ela e não só nossa como de Antônio Pereira também, a gente divide a água com eles”, afirmou Leandro Lopes, morador do Bairro Alvorada, indicando o ponto no terreno onde o sistema de abastecimento do bairro está localizado.

Além da possível interferência direta nas captações, a comunidade teme o carreamento de sedimentos durante o período de chuvas, caso a vegetação da área seja removida. “A partir do momento que você limpa esse morro, vai infiltrar água, mas vai descer sedimento também. E ele vai descer para baixo, não vai subir”, explicou a geógrafa Maria Godoy.
Segundo relatos, mesmo sem mineração, episódios de entupimento das captações já ocorrem durante chuvas fortes. “No período de chuva a gente precisa ir lá limpar. Já tive prejuízo de quase quatro mil reais de material que foi embora”, relatou o morador Anderson Silva.
Experiência na mineração alimenta desconfiança
Além das dúvidas técnicas, relatos pessoais também vieram à tona. Anderson Silva, que trabalhou por três anos em operações minerárias, relatou ter presenciado práticas que, segundo ele, não aparecem nos relatórios ambientais. “Tudo no papel é uma coisa. Lá dentro da mineração é outra”, afirmou.

O representante dos moradores descreveu situações em que máquinas derrubavam vegetação e animais eram soterrados durante operações realizadas fora do horário de fiscalização.
Você vê trator empurrando, árvore deitando, passarinho voando, bicho correndo. Eu vi caminhão passar por cima de animal e depois enterrar
O ex-funcionário afirmou ter deixado o setor após três anos de trabalho por não concordar com o que presenciava.“Saí revoltado. Na sala de aula tudo é bonito. Mas na prática é diferente.”
Anderson questionou também a falta de comunicação do empreendimento com a comunidade, que só ficaram sabendo da visita técnica dois dias antes de sua realização.
“A mineração já estava em processo há quase dois anos e a gente ficou sabendo praticamente ontem”, criticou o morador. A ausência de diálogo direto também foi apontada como fator que amplia a desconfiança em relação ao projeto.

Produção prevista e logística
Durante a visita, o consultor confirmou que a operação prevê produção anual de cerca de 300 mil toneladas de minério/ano. O transporte seria realizado por caminhões, com circulação média estimada entre três e cinco veículos por dia.
Na hipótese de circularem apenas cinco caminhões por dia, cada um deles precisaria carregar cerca de 164 toneladas para atingir a produção estimada. Caminhões rodoviários de mineração tem uma capacidade de carga de cerca de 20 toneladas.
A Estrada da Purificação, tradicional caminho histórico da região, não poderá ser utilizada pela mineradora. Além do valor cultural e turístico, a via possui restrições legais para o tráfego de veículos pesados.
Diante disso, o empreendimento prevê a abertura de um acesso interno utilizando antigas trilhas da região, o que exigirá supressão vegetal já prevista nos estudos. Segundo a geógrafa Maria Godoy, a estrada que servirá para escoamento é uma trilha histórica de tropeiros na região, estando inclusive inteiramente sobre um sítio arqueológico e deveria ser tombada como patrimônio histórico.
Próximos passos
A visita técnica deve subsidiar a decisão do Codema de Mariana sobre a concessão da Declaração de Conformidade com o Plano Diretor, etapa necessária para que o processo de licenciamento ambiental avance.
Durante as discussões, após reclamações dos moradores, representantes do conselho também levantaram a possibilidade de realização de uma audiência pública conjunta entre os conselhos ambientais de Mariana e Ouro Preto, com o objetivo de ampliar o debate com a população.
Enquanto os estudos técnicos apresentados pelo empreendedor defendem que a mineração terá baixo impacto, moradores da região permanecem em alerta. Para eles, a experiência histórica com a atividade minerária na região é motivo suficiente para cautela.
A gente não quer, o bairro não quer viver com a placa de rota de fuga no bairro. Do jeito que Congonhas vive, Itabira vive... o Brasil praticamente todo vive em rota de fuga
Entre relatórios científicos e a vivência cotidiana de quem mora na região, o futuro do Projeto Walls segue em disputa, agora também no campo da percepção pública sobre o território.

Joyce Campolina
É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas







