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Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Cláudio Coração:
Quando eu conheci Mariana e Ouro Preto, em 2010, já tinha me perdido semanas antes por Minas Gerais. Deliberadamente. Viajava a esmo. A ajustar pontos foras da curva, embarquei e vi as curvas de fato. Já hospedado na região dos inconfidentes, lembro de comprar várias lembranças para pessoas queridas: um jogo de baralho com as obras barrocas, pedras minúsculas configuradas em paisagens, fotografias estilizadas em labirintos. Por falar em labirinto, ao me deslocar de Ouro Preto para Mariana, pude compreender a ideia do complemento e da diferença, com minhas retinas encantadas de sujeito paulista aparentemente polido. Me deparei com outra polidez nesse intermezzo. Uma imagem sintética estenderia o desconcerto, constatei que em Ouro Preto não tem espaço parecido ou similar com o Jardim de Mariana.
Quando eu conheci Mariana e Ouro Preto, o Bar Barroco ficava na rua Direita, o som do local era alto e os grafismos nas paredes eram pistas etílicas de imprevisíveis sinais. Identifiquei conterrâneos rabiscados nesses tons transcendentais. Olhando em retrospecto, aquela parede só existe em ruína, infelizmente. Nos arredores, trombei com poetas bêbados. Concentravam-se em frente ao imponente Cine Vila Rica. Em meio a abordagens amalucadas dos poetas, fugi e assisti ao filme Romance, de Guel Arraes, ali no cinema. O filme era fraco, o espaço era vívido. Na padaria quase ao lado, localizei o trânsito dos encontros em suspensão e pude perceber a diversidade além dos mitos das montanhas. Ao descer para a estação ferroviária, para o passeio de trem OP-Mariana, emulei as paragens paulistas, na comparação entendi que em Minas elas eram projetadas em desfiladeiros.
Quando voltei para Ouro Preto e Mariana, em 2012, já havia a assimilação explicada do tal retorno. O famigerado Intercom Sudeste era uma espécie de motivo alheio e oportuno para um exercício mental falsamente fortuito. Esse da contração do encantamento delineado e transmutado em realidade. Nas voltas intuitivas pelos espaços das duas cidades, orientava amigos de primeira viagem num território ainda indomável para mim. No périplo das ostentações, as poses das fotos, já condicionadas a um novo tempo de convívio digital, embalavam novas percepções: sobre o mundo e suas artimanhas, que agora era concentrado em Mariana e Ouro Preto, pela força dos seus signos e orientações.
Quando voltei em Ouro Preto e Mariana, a presença da UFOP era uma bigorna sem freios na minha condição de expectativas. No mirante do Morro do Cruzeiro, condição e expectativa se enamoraram. Meio que desconexo, tal flerte firmava, então, uma “decisão reflexiva”: viver aqui, gosto dessa ideia marota. Não lembro exatamente do que me guiava, como leitura e bússola naqueles dias, só me recordo do sonho livre em premonição escaldada.
Quando fiquei em Mariana e Ouro Preto, em 2014, não era cedo nem tarde. Agora, o ponto de chegada era Mariana e não mais Ouro Preto. Mas ambas continuavam em extensão. Tomei posse como professor da Universidade Federal de Ouro Preto. Na pousada em que fiquei hospedado em Mariana fiz orações sem saber rezar. Para celebrar dois movimentos em sintonia, a posse e o meu aniversário. Era 25 de março. Brindei solitária e efusivamente um chope com pastel gigantesco no extinto Bar da Locadora no Jardim. Depois, empenhei pelo footing detalhado da/na região central (que descobri se chamar centro histérico). A celebração deslumbrante de meu aniversário em dupla face com a conquista pensada e contemplada até ali era deleite convicto do arrebatamento. Que só aumentaria nos anos vindouros.
Quando fiquei em Mariana e Ouro Preto, pude estipular e estimular que a paixão e o amor são doses de cicuta misturadas com erva doce. Na enganosa frieza da projeção, de novo a premonição com os princípios agudos da sensibilidade era posta à prova. Nelson Rodrigues costumava dizer que a paixão não existe sem o risco. Ao atravessar a rua, a avenida e as fronteiras, assinamos esse contrato com ela, a paixão. Dos souvenires contemplados e comprados em 2010, sutilmente, até a consciência da paixão, o amor fez guinada de muitas voltas. Ao me receber com esses embalos sentimentais todos, Ouro Preto e Mariana me permitiram viver os melhores dias de nossas vidas.
Então, no fio da memória, já passados quase treze anos de minha chegada pelas firmas deste outro tempo escoado em paisagem de pedra e vale, em 2026, é bom afirmar o sentido do rio, para dizer, meio que sintética e provocativamente, que desconfio, ao sabor de tudo que estou vivendo, como forma de agradecimento e sensatez, de que o mosaico composto em verbo, música e imagem é de tudo harmônico. Em forma de contemplação que não cessa, diante de flashes envoltos nas passagens e harmonias, grito: Ouro Preto é prosa poética, Mariana é poesia... concreta!
Obrigado.


