Leia o texto (ou ouça o áudio) da coluna de Andreia Donadon Leal:
Conheci Lourdinha Walter quando a convidei para cantar na primeira sessão da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil. Era 2008, em uma reunião marcada por apresentações da AMILCA e da Escola Municipal Marphiza Magalhães com discursos esperançosos.
Aquele ano foi extremamente importante para mim e demais poetas da cidade e do interior mineiro, pois inaugurávamos uma academia inclusiva na Matriz de Minas.
Mariana é um município de vasta riqueza cultural. Aqui, no nascedouro de Minas, temos um cabedal de escritores que marcaram a história da literatura brasileira. Há nomes esquecidos pela memória coletiva. Temos um autor, jornalista e poeta, que esquecido nos alfarrábios da desinformação como: José Severiano de Resende, nascido em Mariana-MG, no dia 23 de janeiro de 1871 e faleceu em Paris no dia 14 de novembro de 1931. Iniciou estudos de Direito por um tempo, dedicou-se por um tempo ao sacerdócio, passando depois ao jornalismo, mudando-se para Paris, onde redigia a seção “Lettres brésiliennes” do Mercure de France e onde casou-se com uma francesa. Sua obra poética está consolidada no livro Mistérios (1920), que vão dos temas amorosos aos religiosos, além de poemas sobre animais.
Mas este texto não é para lembrar que temos um poeta marianense respeitado pelos mestres franceses do movimento simbolista. O motivo destas linhas é para prestar louvações a uma ativista da educação e da cultura gaveteira: Maria de Lourdes Walter, filha do notável maestro Aníbal Walter. Elias Layon, um dos maiores vultos da cultura marianense, disse: “nossa querida Lurdinha foi uma grande incentivadora do meu trabalho e do trabalho de tantos artistas de Mariana. Sempre esteve profundamente ligada à cultura, à arte e ao ensino, dedicando sua vida a promover e valorizar essas áreas tão importantes para a nossa cidade. Filha de uma exímia costureira e de Aníbal Walter, maestro da Banda União XV de Novembro por muitos anos, cresceu em um ambiente rico em sensibilidade artística, cultural e humana. Essa formação certamente contribuiu para desenvolver sua sensibilidade e seu olhar para as manifestações artísticas e culturais. Como educadora, incentivadora da arte e defensora da cultura, soube conviver e atuar em nossa sociedade de forma admirável, deixando marcas positivas por onde passou e inspirando inúmeras pessoas. Seu apoio aos artistas, sua presença constante nos eventos culturais e seu compromisso com a educação fizeram dela uma referência para muitas gerações. Sua partida representa uma grande perda para Mariana e para todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecer sua dedicação, seu carinho e seu amor pela cultura. Sentimos profundamente essa ausência. Fica a saudade, a gratidão e a lembrança de uma mulher que contribuiu de forma significativa para a vida cultural de nossa cidade”.
O acadêmico e presidente do Marianense Futebol Clube, Dr. Luciano Guimarães disse: “há uma semana, o Marianense Futebol Clube empossava seus órgãos deliberativos e administrativos. Também condecorava pessoas e entidades importantes para a nossa sociedade. Um dos homenageados foi Paulo Aníbal Walter (em memória) que presidiu nosso Clube, com excelência. Lourdinha estava presente conosco, com seu sorriso aberto, sua simpatia e sua cordialidade. Não sabíamos que estaríamos nos despedindo dela... Como disse Ricardo Reis, "O tempo passa, não nos diz nada. Envelhecemos. Olha com calma, que o dia é curto e o inverno longo." E foi justamente no Solstício de Inverno que Lourdinha Walter nos deixou. O dia mais curto e a noite mais longa do ano levou para outro plano alguém que nos fazia felizes. Uma grande artista, educadora e incentivadora das nossas artes, em especial, a música. Se o inverno é uma época que evoca saudades, o inverno marianense começa mais profundo e um tanto silencioso neste ano.
Para José Benedito Donadon Leal, presidente da Casa de Cultura – Academia Marianense de Letras, Lourdinha Walter foi uma parceira do canto coral marianense, do canto popular, em parceria com Chiquinho do Sax e Crispim, e aluna/professora da Escola de violão prof. Moura Santos. Alfabetizadora de tantas gerações de marianenses, Lourdinha foi exemplo da mestra inesquecível, e é reconhecida por ex-alunos pela sua forma empática de ensinar a aprender.
A rica história de Mariana será mais rica quando souber reconhecer seus verdadeiros valores humanos, tal como foi Lourdinha Walter, que não pode ser esquecida, pois está viva nas atividades educativas, culturais e musicais das pessoas que com ela aprenderam a dar os primeiros passos no letramento afetivo, base da cultura comportamental da sociedade.



