Mariana (MG), 15 de outubro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade
Publicidade

Resistência e Identidade: A Cultura do Rock em Ouro Preto

O rock and roll encontrou em Ouro Preto um território que transcende a barreira do som. Entre as seculares repúblicas estudantis, as festas tradicionais e as iniciativas de preservação da memória musical, o gênero consolidou-se como pilar da identidade cultural da antiga Vila Rica, uma cidade onde a efervescência da vida universitária convive intimamente com a tradição histórica.

Fotografia em plano aberto e iluminação baixa de um show musical em ambiente fechado. Em primeiro plano e no centro da imagem, várias pessoas jovens vistas de costas e de perfil formam o público aglomerado diante do palco. Algumas estão de cabeça erguida olhando para a frente, e uma mulher em destaque à direita apoia a mão sobre a cabeça enquanto observa a apresentação. Ao fundo, no palco pouco iluminado, uma banda toca sob fortes holofotes de luz azul e focos brancos. É possível distinguir a silhueta de uma pessoa cantando ao centro e, à direita dela, um homem com óculos e camiseta preta tocando contrabaixo elétrico. Grandes caixas de som pretas emolduram as laterais do palco.

Show da banda Seven Little Heads no Poleiro Blues n Roll 2026 - Foto: Julia Sebaio

Por Pedro Rogel e Luis Xavier

O Rock n Roll e a vida universitária

Na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o rock moldou a rotina e o comportamento dos estudantes ao longo das décadas. Para Flávio Emílio, o "Sabão", ex-aluno de Direito e antigo morador da República Poleiro dos Anjos, a expressão “ir pro rock” carregava um sentido muito mais amplo do que o simples ato de ouvir música. 

Qualquer festa era rock. O que hoje o pessoal chama de balada, a gente chamava de rock

recorda.


A fala sintetiza uma época em que o gênero ditava o ritmo e ocupava o lugar central nas confraternizações e na socialização estudantil.

Esse ambiente de intensa convivência foi o berço de eventos que marcaram a cena cultural ouro-pretana. A tradicional festa Poleiro Blues & Roll, por exemplo, nasceu de forma curiosa: foi a resposta criativa de um grupo de estudantes para cobrir o prejuízo financeiro de uma edição anterior malsucedida. O evento acabou se transformando em um símbolo da engenhosidade e da resistência coletiva que pulsam dentro das repúblicas, locais onde o rock sempre funcionou como ferramenta de união e expressão comunitária.

A cidade que respira o Rock

A cena local não se alimenta apenas de nostalgia; ela também se estrutura fortemente na preservação da memória. Localizado na Rua 15 de Agosto, 856, no Morro da Queimada, o Memorial Pink Floyd Fans é divulgado oficialmente pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo como um espaço de visitação pública totalmente dedicado à icônica banda britânica. A existência do memorial revela como a relação de Ouro Preto com o rock ultrapassa as fronteiras dos palcos e das festas, consolidando-se por meio de acervos minuciosos, relíquias e narrativas construídas pela paixão dos fãs.

Wesley Cristiano de Sousa, de 49 anos, é morador de Ouro Preto e fundador do memorial, virou fã da banda aos 14 anos de idade, após escutar uma fita cassete emprestada pelo seu tio. Ele se apaixonou pelo cunho social e existencialista da banda. Ao longo da adolescência colecionou revistas e jornais que falavam sobre a banda, além de CDs, fitas e discos de vinil. No ano 2000, Wesley fundou o Fã Clube do Pink Floyd em Ouro Preto, e, naquela época, o grupo organizava encontros, promovia sessões de filmes e documentários na cidade com o intuito de mostrar a banda inglesa a quem não conhecia e reunir os amantes do rock.
 

eu tinha um sonho, desde aquela época, de construir um espaço para homenagear a banda e reunir o fã clube

Wesley


Os trinta membros do clube ainda se reúnem uma vez ao ano.

Capas de revistas sobre a banda Pink Floyd / Luis Otávio
Capas de revistas sobre a banda Pink Floyd / Luis Otávio
Capa do disco The Dark Side of The Moon autografada pelo cantor Roger Waters / Luis Otávio
Capa do disco The Dark Side of The Moon autografada pelo cantor Roger Waters / Luis Otávio

Wesley conseguiu o autógrafo do cantor Roger Waters depois de ficar dois dias acampado no Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. O memorial conta com diversos artigos sobre o Pink Floyd, entre fitas cassete, discos de vinil, CDs, revistas e as baquetas pessoais do Nick Mason, antigo baterista da banda, que reconheceu o projeto e enviou suas baquetas como forma de agradecimento e admiração. Todos os artigos possuem explicação sobre o seu sentido em português e inglês. A visita ocorre através de três imersões ministradas por Wesley, a primeira falando sobre o álbum The Dark Side of the Moon e as duas seguintes sobre o disco The Wall. Nelas, é explicado o sentido por trás dos álbuns e de suas músicas, além de serem apresentados o filme da banda e o show de 1990, que ocorreu após a queda do muro de Berlim. Todo o memorial faz referência à banda, com elementos dos álbuns Animals e The Wall e a shows históricos do grupo. 

Para Wesley, a força simbólica do gênero vai muito além de uma estética rebelde. Em sua visão, elementos clássicos, como a caveira,  carregam uma profunda mensagem de igualdade e crítica social. 
 

A caveira no rock é uma crítica direta a todo tipo de preconceito

afirma,


lembrando que, sob a pele, somos todos iguais. Essa leitura reforça a dimensão essencialmente contestadora que ainda sustenta a bandeira do rock na cidade.

Para Álvaro Peixoto, turista e fã da banda, visitar o memorial foi como entrar em um museu e viajar na linha do tempo da banda. 
 

Ver tantas coisas sobre a banda, como as revistas, os CDs e itens autografados, como as baquetas do Nick Mason, o disco do Roger Waters, é um sentimento inexplicável. Me senti mais perto do Pink Floyd.

 

Publicidade
Publicidade

A taxa de visitação é R$60 a inteira e R$30 a meia entrada, disponível para estudantes, idosos e Ouropretanos. Crianças até 11 anos não pagam.

Wesley, dono do memorial do Pink Floyd em Ouro Preto / Luis Otávio
Wesley, dono do memorial do Pink Floyd em Ouro Preto / Luis Otávio

Hoje, a cultura do rock em Ouro Preto atravessa uma fase de amadurecimento e transição. Se no passado o gênero dominava de forma quase absoluta as festas universitárias e as noites das repúblicas, hoje ele também encontra abrigo seguro nos espaços de memória e nas iniciativas independentes ligadas aos amantes da música. Entre o passado de ouro e o presente de preservação, o rock segue pulsando forte nas ladeiras históricas, afirmando-se como sinônimo de identidade, resistência e permanência.

Público do Poleiro Blues n Roll 2026 /
Público do Poleiro Blues n Roll 2026 / Reprodução
Publicidade
Publicidade
Compartilhar

Leia também

Galeria Nello Nuno estreia 3 exposições de artistas nacionais Artes Visuais

Galeria Nello Nuno estreia 3 exposições de artistas nacionais

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988 Brasil

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

Mariana lidera repasses do Edital Rio Doce que também contempla projetos em Antônio Pereira Cidades

Mariana lidera repasses do Edital Rio Doce que também contempla projetos em Antônio Pereira

Publicidade
Publicidade