Por Pedro Rogel e Luis Xavier
O Rock n Roll e a vida universitária
Na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o rock moldou a rotina e o comportamento dos estudantes ao longo das décadas. Para Flávio Emílio, o "Sabão", ex-aluno de Direito e antigo morador da República Poleiro dos Anjos, a expressão “ir pro rock” carregava um sentido muito mais amplo do que o simples ato de ouvir música.
Qualquer festa era rock. O que hoje o pessoal chama de balada, a gente chamava de rock
A fala sintetiza uma época em que o gênero ditava o ritmo e ocupava o lugar central nas confraternizações e na socialização estudantil.
Esse ambiente de intensa convivência foi o berço de eventos que marcaram a cena cultural ouro-pretana. A tradicional festa Poleiro Blues & Roll, por exemplo, nasceu de forma curiosa: foi a resposta criativa de um grupo de estudantes para cobrir o prejuízo financeiro de uma edição anterior malsucedida. O evento acabou se transformando em um símbolo da engenhosidade e da resistência coletiva que pulsam dentro das repúblicas, locais onde o rock sempre funcionou como ferramenta de união e expressão comunitária.
A cidade que respira o Rock
A cena local não se alimenta apenas de nostalgia; ela também se estrutura fortemente na preservação da memória. Localizado na Rua 15 de Agosto, 856, no Morro da Queimada, o Memorial Pink Floyd Fans é divulgado oficialmente pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo como um espaço de visitação pública totalmente dedicado à icônica banda britânica. A existência do memorial revela como a relação de Ouro Preto com o rock ultrapassa as fronteiras dos palcos e das festas, consolidando-se por meio de acervos minuciosos, relíquias e narrativas construídas pela paixão dos fãs.
Wesley Cristiano de Sousa, de 49 anos, é morador de Ouro Preto e fundador do memorial, virou fã da banda aos 14 anos de idade, após escutar uma fita cassete emprestada pelo seu tio. Ele se apaixonou pelo cunho social e existencialista da banda. Ao longo da adolescência colecionou revistas e jornais que falavam sobre a banda, além de CDs, fitas e discos de vinil. No ano 2000, Wesley fundou o Fã Clube do Pink Floyd em Ouro Preto, e, naquela época, o grupo organizava encontros, promovia sessões de filmes e documentários na cidade com o intuito de mostrar a banda inglesa a quem não conhecia e reunir os amantes do rock.
eu tinha um sonho, desde aquela época, de construir um espaço para homenagear a banda e reunir o fã clube
Os trinta membros do clube ainda se reúnem uma vez ao ano.


Wesley conseguiu o autógrafo do cantor Roger Waters depois de ficar dois dias acampado no Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. O memorial conta com diversos artigos sobre o Pink Floyd, entre fitas cassete, discos de vinil, CDs, revistas e as baquetas pessoais do Nick Mason, antigo baterista da banda, que reconheceu o projeto e enviou suas baquetas como forma de agradecimento e admiração. Todos os artigos possuem explicação sobre o seu sentido em português e inglês. A visita ocorre através de três imersões ministradas por Wesley, a primeira falando sobre o álbum The Dark Side of the Moon e as duas seguintes sobre o disco The Wall. Nelas, é explicado o sentido por trás dos álbuns e de suas músicas, além de serem apresentados o filme da banda e o show de 1990, que ocorreu após a queda do muro de Berlim. Todo o memorial faz referência à banda, com elementos dos álbuns Animals e The Wall e a shows históricos do grupo.
Para Wesley, a força simbólica do gênero vai muito além de uma estética rebelde. Em sua visão, elementos clássicos, como a caveira, carregam uma profunda mensagem de igualdade e crítica social.
A caveira no rock é uma crítica direta a todo tipo de preconceito
lembrando que, sob a pele, somos todos iguais. Essa leitura reforça a dimensão essencialmente contestadora que ainda sustenta a bandeira do rock na cidade.
Para Álvaro Peixoto, turista e fã da banda, visitar o memorial foi como entrar em um museu e viajar na linha do tempo da banda.
Ver tantas coisas sobre a banda, como as revistas, os CDs e itens autografados, como as baquetas do Nick Mason, o disco do Roger Waters, é um sentimento inexplicável. Me senti mais perto do Pink Floyd.
A taxa de visitação é R$60 a inteira e R$30 a meia entrada, disponível para estudantes, idosos e Ouropretanos. Crianças até 11 anos não pagam.

Hoje, a cultura do rock em Ouro Preto atravessa uma fase de amadurecimento e transição. Se no passado o gênero dominava de forma quase absoluta as festas universitárias e as noites das repúblicas, hoje ele também encontra abrigo seguro nos espaços de memória e nas iniciativas independentes ligadas aos amantes da música. Entre o passado de ouro e o presente de preservação, o rock segue pulsando forte nas ladeiras históricas, afirmando-se como sinônimo de identidade, resistência e permanência.



