Riqueza de Tom Zé

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Atualizado em 08/06/2021 às 10:06, por Thomás Toledo.

Foto: Reprodução

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No quarto episódio da temporada Riquezas, vamos falar da riqueza de Tom Zé. Isto mesmo. O cantor baiano que expressa toda sua irreverência, viva e provocadora. Na coluna de hoje, na verdade vou trazer uma canção de Tom Zé, chamada A Gravata - em especial, uma interpretação no Programa Jovem Urgente (1969), da TV Cultura.

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Lá naquele programa, em suas palavras Tom Zé diz que, para um sujeito ser considerado um cidadão, ele precisa de três coisas: gravata, documento e neurose. Uma delas, motivou uma letra pra lá de intrigante – e muito atual. A Gravata alfineta e lamenta, combate e sofre os rumos da ‘cidadania de pedra’, baseada no consumo, já discutido aqui em outro episódio da temporada (Ep. 02 Dinheiro e a Sociedade de Consumo – a vida como ela é).

PROVOCAÇÃO

Tom Zé repercute o simbolismo da gravata para talvez mostrar o que podemos reconhecer como uma imposição da moralidade. A ideia de bens e estabelecimento social culminando no que significa a marginalidade diante dessas imposições – e as faltas e desequilíbrios estruturais sendo cada vez mais tratados como questões de mérito, ou proveito das oportunidades.

A Gravata simboliza sua falta. A falta de gravata – o “estrepitese moral” chamado por Tom Zé, é o estado de sub-humanidade. Uma parte, um pedaço dentro que chamamos de cidadania – e muitas vezes, em evolução.

O estado de sub cidadania é necessário para as imposições do modelo. Cria-se espaço e estimula sua existência. É como o estabelecimento da cracolândia como “opção de vida” em São Paulo.

Tom Zé consegue nos divertir com sua capacidade e cita pragmatismos morais, como nas expressões “dama sem pudor”, ou um cidadão sem a gravata é como um “grande palavrão” para a sociedade. Seria como não ter ido até onde podia – medidos sob padrões pra lá de controversos (sobre o que é ser uma pessoa boa neste universo de consumo).

ENFEITES

Tom Zé também me parece contar sobre as mais variadas formas de “se render à sociedade da gravata”. Tem a colorida, tem a borboleta, tem a de laço… mesmo cantada em 1969, a gravata citada é a do padrão empresário de 2021, a gravata de laço, a que desce do colarinho, toda molenga feita uma tripa, se deitando na barriga.

Colocamos os mais variados enfeites dos sucessos sociais em nosso caminho. Nos rendemos a algumas formas de ser – e até mesmo aos produtos que temos, para estabelecer nossos desejos e nossas concepções de felicidade, satisfação, destino e realidade. Realidades.

Pode ser com a gravata cowboy. Pode ser com a gravata borboleta. A riqueza de Tom Zé parece provocar as nossas rendições ao que realmente não é “nós”. O desenho pré-concebido do mal e do bem, e o sufocamento do orgulho, da ganância, e da ilusão do poder.

A GRAVATA

No trecho final, Tom Zé manda a real sobre o que significa uma gravata. O melhor conceito de gravata que eu já vi. O artista chama a gravata de “forca portátil” e afirma que é a forca mais fácil de manejar, além de ser moderna e bem colorida.

Tom Zé continua nos tirando do sério, compondo num verso enormes traumas sociais, referentes ao patriarcado que é uma das bases da sociedade, ao se direcionar a gravata como “um processo freudiano para autopunição”. O poder também se alimenta da necessidade de autoafirmação. Principalmente, da nossa falta de direção.

Ouvindo a canção de Tom Zé, eu me lembro que em 2021, a subjetividade do consumo venceu, e tudo está na moda. Em 2021, até o agro é pop.

E está cada dia mais fácil escolher qual gravata colocar para se esconder, pois as opções são cada vez maiores, para você se render.

Eu daqui, fico com a riqueza de Tom Zé.

O programa “Jovem Urgente” era dirigido aos jovens e seus pais, em linguagem coloquial e direta, acessível ao público. No total, foram exibidos 32 programas. Na época, 1969, o país vivia o período mais agudo do regime militar. Realizar o programa era um risco permanente para sua equipe. A gota d’água foi um capítulo dedicado à discussão da sexualidade.

O tema provocou a imediata e indignada reação dos grupos conservadores. “Jovem Urgente” foi o primeiro programa de televisão a sofrer censura e sua exibição foi proibida em todo o território nacional. E Gaudêncio foi afastado da Fundação Padre Anchieta, entidade mantenedora da TV Cultura.

Thomás Toledo é brasileiro, latino americano, humano e graduado em Comunicação Social/Jornalismo


Thomás Toledo

Thomás Toledo é brasileiro, latino americano, humano e graduado em Comunicação Social/Jornalismo