A criação de uma “lista trans” para a próxima calourada da Atlética Primaz, em Mariana, desencadeou uma sequência de ataques transfóbicos e reacendeu um debate urgente sobre inclusão nos espaços universitários. O caso veio a público no último sábado (21), quando a entidade estudantil divulgou uma nota oficial denunciando as retaliações sofridas por seus membros após a iniciativa.
A Atlética Primaz, fundada em 2016 e formada por estudantes dos cursos do campus de Mariana da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), atua na promoção da prática esportiva, integração e eventos culturais. A calourada, marcada para o dia 18 de abril, no Clube Guarani, com participação de DJs locais, é um dos principais eventos da entidade e simboliza o início de mais um período letivo.
Foi nesse contexto que surgiu a chamada “Lista T”, uma política de inclusão que garante entrada gratuita para pessoas trans, travestis e não-binárias ao evento. A proposta, segundo a atlética, busca ampliar o acesso a espaços historicamente negados a essas populações.
A gente sempre teve o objetivo de agrupar a maior diversidade de público possível. Nesse caso, pensamos especificamente na comunidade trans, que a gente sabe que enfrenta muitas barreiras e preconceitos no Brasil. A lista foi uma forma de promover essa participação. Mas sabe, a ignorância das pessoas acaba gerando esse tipo de acontecimento que é super desnecessário
Ataques e discurso de ódio
A repercussão da iniciativa, no entanto, foi imediata e violenta. Integrantes da atlética passaram a receber mensagens com críticas à iniciativa, em sua maioria vindas de pessoas cisgênero e heterossexuais, que questionavam o fato de precisarem pagar ingresso enquanto pessoas trans teriam acesso gratuito.
O episódio mais grave ocorreu na sexta-feira (20), quando o vice-presidente da atlética, Cauê Lobo, recebeu uma ligação com teor abertamente transfóbico.
Eu recebi uma ligação por volta das 20h. O cara perguntava como funcionava a lista e dizia que não era justo ele pagar enquanto outras pessoas não. Expliquei que era uma política voltada para a comunidade trans e que não havia injustiça nisso. A partir daí, ele começou a reclamar, pediu reembolso e disse que não iria estar em um lugar com ‘viado e traveco'
Segundo Cauê, a conversa foi encerrada após ele orientar o suposto comprador a enviar o comprovante para reembolso. No entanto, o caso escalou: “Ele mandou mensagens depois e um arquivo simulando um comprovante. Quando abri, era a imagem de um órgão genital masculino”, afirmou Cauê. Diante da gravidade, uma denúncia por violação de direitos humanos foi formalizada.
Negação e deboche
Procurado pela reportagem, o responsável pela ligação, Marlon Ibrahim, negou ter cometido transfobia. “Transfobia? Não fiz isso. Apenas reclamei que queria a devolução do meu dinheiro e não devolveram”, disse.
A versão, porém, é contestada pela atlética. De acordo com Artur Corrêa, não há registro de compra em nome do autor das mensagens.“Conferimos na lista de ingressos e não encontramos nenhum nome correspondente. Não sabemos nem se essa pessoa chegou a comprar o ingresso”, afirmou.
Em outras mensagens, Marlon adotou um tom debochado e reforçou o posicionamento contrário à política da lista. Disse “não estar nem aí” para a situação e afirmou que “não iria pagar enquanto pessoas trans não pagariam”. Em tom irônico, acrescentou: “Inclusive sou gay e vou praticar transfobia kkkkkkkkkk”.
Diante dos ataques, a Atlética Primaz publicou uma nota oficial reafirmando sua postura.“A Primaz não voltará atrás em sua decisão. Acreditamos que a universidade e os espaços de convivência devem ser ambientes de respeito, diversidade e acolhimento”, diz o comunicado.
A nota também reforça o papel social da entidade: “Temos o compromisso de promover integração e pertencimento. Isso inclui garantir que comunidades historicamente marginalizadas possam ocupar esses espaços com segurança e dignidade”.
O que é a Lista Trans?
A chamada Lista T é uma política de inclusão adotada em eventos culturais e universitários para garantir acesso gratuito a pessoas trans, travestis e não-binárias. A medida se baseia no reconhecimento de que essas populações historicamente enfrentam exclusão social, econômica e cultural.
Mais do que um benefício pontual, trata-se de uma ação simbólica e prática de reparação. Durante décadas, pessoas trans foram impedidas de frequentar espaços de lazer e cultura. Nos anos 1980, por exemplo, relatos apontam que travestis eram barradas na compra de ingressos para espetáculos.
Ainda nos anos 80, operações policiais como a “Tarântula”, foram responsáveis por prisões arbitrárias e perseguição de travestis e mulheres trans, sob pretexto de "limpeza urbana" e combate à AIDS em São Paulo, o que ajudou a reforçar práticas de perseguição e marginalização.
Atualmente, iniciativas como a Lista T funcionam, em geral, por autodeclaração e inscrição prévia, seja por formulários ou contato direto com organizadores. Embora não resolvam desigualdades estruturais, representam uma tentativa de ampliar o acesso à cultura e promover o pertencimento.
Muito além de uma festa
O caso da Atlética Primaz ultrapassa os limites de uma polêmica sobre ingressos. Ele revela tensões profundas sobre quem pode ocupar determinados espaços e sob quais condições.
Ao manter a Lista T mesmo diante de ataques, a entidade assume uma posição clara de que inclusão não é por concessão, mas uma questão de direito e compromisso.


