Mariana (MG), 5 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Tratamento e apoio coletivo fortalecem a recuperação da dependência alcoólica

Especialistas e participantes do Alcoólicos Anônimos explicam como o acolhimento e o tratamento contribuem para superar o alcoolismo

Fotografia de uma mesa coberta por um tecido azul com o símbolo dos Alcoólicos Anônimos (AA) ao centro e a frase “Foi bom você ter vindo” abaixo. Sobre a mesa, há cinco livros relacionados ao programa de recuperação, incluindo títulos como “Levar adiante”, “A linguagem do coração”, “Alcoólicos Anônimos” e “Alcoólicos Anônimos — As doze tradições”

Acolhimento e recuperação: livros sobre sobriedade e motivação integram o ambiente onde ocorrem as reuniões do grupo – Foto: Evelyn Oliveira

Reportagem de Evelyn Oliveira e Júlia Silva – Originalmente publicada no portal Lamparina

O consumo de álcool é um hábito comum entre os brasileiros e está frequentemente associado a momentos de lazer e confraternização. Apesar de ser socialmente aceito, o consumo abusivo dessa substância está relacionado ao desenvolvimento da dependência alcoólica, de doenças crônicas e de diversos prejuízos à saúde física e mental do indivíduo.

Em 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicou o relatório Álcool e Saúde na América, mostrando que o consumo na região é aproximadamente 40% superior à média global.

No Brasil, o 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), divulgado em 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que grande parte da população com 14 anos ou mais relataram ter consumido algum tipo de bebida alcoólica ao longo da vida.

O gráfico mostra o consumo de bebidas alcoólicas da população em diferentes períodos – Fonte: Unicef – Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III)

Embora o consumo de álcool faça parte da rotina de milhões de brasileiros, nem todo uso evolui para um quadro de dependência. Especialistas explicam que a principal diferença está nos impactos que a bebida passa a provocar na vida do indivíduo.

Quando o consumo deixa de ser recreativo

Segundo o psiquiatra Dr. Ricardo Moebus, o álcool é uma substância presente em diferentes contextos. Seu uso pode ser medicinal, ritualístico, recreativo, nocivo ou prejudicial. Entretanto, quando o consumo deixa de ser ocasional e passa a comprometer intensamente a vida do indivíduo, ele pode evoluir para um quadro de dependência.

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Na visão do psicólogo, Dr. Francisco de Assis, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o consumo de bebidas alcoólicas torna-se prejudicial quando passa a interferir na vida pessoal e social do indivíduo. “A dependência não é a pessoa que bebe todos os dias, mas é a pessoa que começa a ter consequências no ambiente externo, vindo do mais longe até chegar dentro de si”.

Os impactos da dependência vão além da saúde física. À medida que o consumo se intensifica, as atividades cotidianas ficam comprometidas e as relações familiares são afetadas. De acordo com o Dr. Francisco, o uso abusivo provoca prejuízos psicológicos, intelectuais, sociais e financeiros.

O uso abusivo acompanha no usuário algumas deteriorizações da sua existência

Dr. Francisco de Assis – Departamento de Medicina/Ufop

Alcoólicos Anônimos

Criado em 1935, nos Estados Unidos, o Alcoólicos Anônimos (AA) surgiu a partir da experiência de dois homens que enfrentavam o alcoolismo e perceberam que compartilhar vivências poderia fortalecer o processo de recuperação. O encontro entre o corretor da Bolsa de Valores, Bill Wilson, e o médico Bob Smith, em Akron, no estado de Ohio, marcou o início do movimento, que mais tarde se consolidaria como uma das maiores redes de ajuda mútua do mundo. 

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No Brasil, o movimento chegou em 1947, atualmente, o AA está presente em mais de 180 países e reúne milhões de participantes, mantendo uma estrutura organizada por grupos autônomos. O funcionamento é sustentado pelas contribuições voluntárias dos próprios integrantes, sem cobrança de mensalidades ou taxas de participação. 

As reuniões são gratuitas e abertas a qualquer pessoa que tenha o desejo de parar de beber, único requisito para integrar a irmandade. A proposta do AA é baseada no apoio entre pessoas que convivem com a dependência do álcool. O princípio do anonimato, que dá nome à irmandade, busca preservar a identidade dos integrantes e reforçar a ideia de igualdade entre todos os membros.

Para o Dr. Francisco de Assis, o acompanhamento médico e psicoterapêutico, quando realizado de forma isolada, tende a ser menos efetivo no processo de recuperação. Para ele, o modelo de ajuda mútua adotado pelo Alcoólicos Anônimos potencializa os resultados do tratamento.

“O trabalho coletivo proposto pelas diretrizes do AA tem uma eficácia muito mais rápida, e os resultados são mais evidentes do que os obtidos apenas com o tratamento psicoterapêutico individual. A psicoterapia individual pode ser um complemento do trabalho desenvolvido pelo grupo de apoio”,

afirma.

Informação sobre dias e horários das reuniões do Alcoólicos Anônimos no município de Mariana – Foto: Arquivo AA

O psicólogo também destaca que a identificação entre os participantes é um dos principais diferenciais dos grupos de ajuda mútua. Para ele, o contato com histórias semelhantes permite que cada integrante reconheça aspectos da própria trajetória por meio da experiência do outro, favorecendo o processo de reflexão e recuperação. “A pessoa entra em um lugar de múltiplos espelhos e começa a se enxergar neles. Há espelhos que a entortam, que a emagrecem, que a engordam, espelhos do seu sofrimento. O relato do outro tem impacto sobre quem está ouvindo. E, quando fala naquele espaço, ela também projeta para esse espelho aquilo que existe dentro de si”, explica.

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“Aqui eu encontrei o que não conseguia sozinho”

O grupo dos Alcoólicos Anônimos (AA) de Mariana promove voluntariamente encontros para as pessoas compartilharem experiências e oferecerem apoio compartilhado a quem busca superar a dependência alcoólica. Sem fins lucrativos, a irmandade se mantém por meio da organização dos próprios integrantes. 

Se os especialistas explicam como o consumo abusivo afeta diferentes áreas da vida, são histórias como as dos membros do Alcoólicos Anônimos que revelam, na prática, os desafios da recuperação.

Os Doze Passos da Sociedade, princípios dotados por grupos de apoio à recuperação do alcoolismo – Foto: Evelyn Oliveira

Um dos integrantes do AA é um senhor de 67 anos, que começou o consumo da bebida ainda na adolescência. “A minha maneira de beber iniciou bem jovem, eu morava na roça e não tinha muita diversão ou muita coisa assim no lugar onde eu nasci”, afirma. Em 1998, ele decidiu procurar ajuda no AA de Mariana.

Durante anos, o consumo de álcool passou a controlar sua rotina. Segundo ele, chegou um momento em que já não conseguia realizar atividades simples do dia a dia sem beber. Há mais de 28 anos fazendo parte da irmandade, ele afirma que a decisão de buscar ajuda transformou completamente sua vida. “Hoje, o conhecimento do programa AA não me ajudou só a parar de beber, como também a reconquistar a família e a ter de novo a confiança deles e dos que falam comigo”.

Muitos participantes encontram no grupo mais do que sobriedade, eles possuem um espaço de acolhimento e pertencimento. Um dos integrantes, um senhor de 72 anos, resume essa experiência ao afirmar: “O AA faz parte da minha vida, aqui eu encontrei e consegui aquilo que não conseguia sozinho”.  Ele relata ter começado a beber ainda muito jovem. Enquanto trabalhava com o pai no mercado da família, teve os primeiros contatos com bebidas alcoólicas. Após diversas tentativas de interromper o consumo, encontrou nos Alcoólicos Anônimos o apoio necessário para iniciar sua recuperação. 

Para os membros, a importância do AA está justamente na troca de experiências. “Em grupo, com esse calor humano, eu falando e ouvindo a experiência do outro. É isso que me fortalece e me ajuda. Encontrar novos amigos, pessoas realmente confiáveis”, relata o senhor.

Outras redes de apoio

Embora o AA desempenhe um papel importante para muitas pessoas, ele não substitui o acompanhamento oferecido pelos serviços de saúde. Em Mariana, quem busca tratamento também pode recorrer a outra entidade. O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS AD), vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS), oferece atendimento especializado e acompanhamento multiprofissional para dependentes químicos. Com acolhimento humanizado, tratamento comunitário em liberdade, e atuação na reinserção social dos indivíduos.

No CAPS AD, o tratamento é realizado por uma equipe multiprofissional, com atuação interdisciplinar. Na avaliação do psiquiatra Dr. Ricardo Moebus, o cuidado vai além do acompanhamento médico.

“Não é apenas um tratamento psiquiátrico. Envolve atendimento psicológico, assistência social, atividades pedagógicas, culturais, terapeutas ocupacionais, entre outras abordagens. Tudo isso faz parte do processo de ressocialização, porque muitas pessoas perderam os laços sociais. Só o tratamento psiquiátrico é insuficiente e limitado”, explica.

A importância de grupos de apoio, como o Alcoólicos Anônimos, também é destacada como um complemento ao tratamento de pacientes em recuperação. Ainda, segundo o psiquiatra, os grupos de ajuda mútua promovem trocas de experiências, fortalecimento de vínculos afetivos e estimulam o compromisso com o processo de recuperação. “Esses grupos vêm somar a esse conjunto de ofertas e possibilidades, fortalecendo e ampliando o tratamento”, afirma.

Buscar ajuda é um ato de coragem

As histórias reunidas nesta reportagem evidenciam que a recuperação é construída de formas diferentes, mas tem um ponto em comum: ninguém precisa enfrentar esse processo sozinho. Para um dos integrantes, o AA representou a oportunidade de reconstruir a própria vida: “eu ganhei a felicidade de volta”.

Já outro participante, que está há dois meses no grupo, descreve o que encontrou ao chegar ao AA: “Eu me encontrei realmente. Não precisar beber e não ter medo de querer beber. Ter paz. Chegar em casa, poder dormir, viver a vida, poder ter paz mesmo”.


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