Mariana (MG), 15 de junho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Caso na UFMT expõe limites da proteção às mulheres na UFOP

Após o caso da “lista de alunas estupráveis” da UFMT, estudantes, vítimas e especialistas denunciam lentidão, fragmentação e sensação de impunidade diante da violência de gênero na Universidade Federal de Ouro Preto

A imagem mostra uma pessoa segurando um cartaz de protesto feito de papel branco, escrito à mão com um pincel atômico ou canetinha de cor rosa/fúcsia. O texto no cartaz está escrito em letras maiúsculas e diz: QUEM FAZ 'LISTA' COMPACTUA!! Detalhes da imagem: Primeiro plano: O foco principal está nas mãos e nos braços de duas pessoas que seguram o cartaz pelas laterais. À direita, é possível ver parte do rosto e do ombro de uma jovem vestindo uma blusa branca. Segundo plano: O fundo está ligeiramente desfocado, revelando o que parece ser o corredor de uma escola ou universidade. Há outras pessoas em pé (uma delas vestindo uma jaqueta preta com listras brancas no ombro e carregando uma bolsa) e paredes de tons claros.

No Brasil, pesquisas apontam que cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de agressão recente - Foto: João Lucas Rodrigues Tessaro

As mensagens vazadas de estudantes da Universidade Federal do Mato Grosso(UFMT), que criaram uma “lista de alunas estupráveis”, chocaram o país nas últimas semanas. O conteúdo, investigado pela Polícia Civil, provocou protestos estudantis, suspensão de aulas presenciais e reacendeu uma discussão antiga dentro das universidades brasileiras: até que ponto as instituições conseguem proteger mulheres da violência de gênero dentro dos próprios campi?

Na Universidade Federal de Ouro Preto(UFOP), estudantes, professoras e vítimas relatam que a discussão está longe de ser nova.“É um acontecimento lamentável. Muito triste que isso siga acontecendo. Essas listas aparecem há décadas, pelo menos agora, tentam denunciá-las”, afirma a professora Karina Gomes Barbosa da Silva, pesquisadora feminista e coordenadora do Observatório de Gênero e Sexualidade Ariadnes, do curso de Jornalismo da UFOP.

Para ela, o maior problema está na estrutura que permite que essas violências continuem acontecendo. “A universidade brasileira é uma máquina de produzir vítimas. Vítimas de assédio moral, assédio sexual, racismo, LGBTfobia…”, dispara.
 

Violência estrutural e sensação de impunidade

O caso da UFMT trouxe à tona uma violência que, segundo especialistas, não é isolada. Em Ouro Preto e Mariana, cidades marcadas pela forte presença universitária e pela cultura republicana, relatos de assédio, importunação sexual e estupro acompanham há anos o cotidiano estudantil. 

Karina afirma que a UFOP tem criado iniciativas importantes, como a Ouvidoria Feminina e projetos de discussão de gênero, mas considera que as medidas ainda são insuficientes diante da dimensão do problema. “A UFOP tem tentado, de forma promissora mas acanhada. Falta institucionalizar essa discussão. Precisamos de cursos obrigatórios, formação transversal e políticas permanentes”, defende a jornalista.

Segundo ela, a lentidão dos Processos Administrativos Disciplinares(PADs) também contribui para a sensação de impunidade.

 

Um PAD pode levar dois anos. Enquanto isso, a vítima continua convivendo com o agressor dentro do campus. Que sensação de justiça isso produz?

Karina Barbosa, professora e pesquisadora


 

Questionada sobre as críticas à duração dos Processos Administrativos Disciplinares (PADs), a UFOP afirma que busca garantir simultaneamente a celeridade dos procedimentos e o respeito às garantias legais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal.

A universidade informa que a Unidade de Corregedoria Instituída adotou, neste ano, um protocolo de planejamento para atividades investigativas e correcionais com o objetivo de tornar os procedimentos mais eficientes. Também afirma que está em fase de implementação formal do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, instituído pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que deverá orientar a condução dos processos de sua competência.

No entanto, devido a demora e a burocracia inerentes aos PAD, esse alerta questiona justamente essa dificuldade das universidades em garantir proteção imediata às vítimas.“Muitas vezes, para uma estudante permanecer segura, ela precisa recorrer à polícia e ao Judiciário para conseguir medida protetiva. E o que acontece quando essa medida é negada?”, questiona a professora.

Procurada pela reportagem, a UFOP afirma que está em processo de construção de uma política institucional voltada ao enfrentamento da violência de gênero e de outras formas discriminatórias. Segundo a universidade, a proposta busca integrar iniciativas que hoje ocorrem em diferentes setores da instituição, estabelecendo fluxos, responsabilidades e diretrizes mais claras para acolhimento e tratamento das denúncias.

A instituição reconhece que as estruturas atualmente existentes “ainda não são plenamente suficientes”, mas afirma que elas estão em processo de fortalecimento. Atualmente, o acolhimento institucional é realizado pela Ouvidoria da UFOP e pelo projeto de extensão Ouvidoria Feminina Athenas, responsável pelo suporte a vítimas de violência de gênero e violência sexual dentro e fora da comunidade universitária.
 

 “Era mais fácil esperar a república agir do que a universidade”

Uma estudante da UFOP, que preferiu não se identificar, contou à reportagem que já sofreu alguns diferentes episódios de assédio sexual em festas e ambientes universitários. Segundo ela, o medo da demora institucional desestimula denúncias. 

“Às vezes eu agradecia quando o assediador era de república, porque parecia mais fácil a própria república tomar alguma providência do que esperar a UFOP resolver. Já vi casos demorarem tanto que a vítima desistiu.”

Outra estudante relatou que, em muitos casos envolvendo denúncias de todos os tipos contra professores, as mudanças acabam sendo apenas internas. “Normalmente mudam o professor de departamento ao invés de demitirem”. 
 

3 anos na fila da resposta

Em julho de 2023, uma estudante da UFOP foi estuprada por um visitante da UFSJ em uma república federal após uma festa universitária em Ouro Preto.

Segundo o relato, Lara(nome fictício usado pela reportagem à época), estava alcoolizada e decidiu dormir na república  Bangalô, que era próxima ao local do chamado “rock”. A vítima acordou com os rastros do abuso deixados em seu corpo, seminua, com dor e sangramento e com as suas roupas rasgadas. 

Em 2025, Lara ainda aguardava respostas concretas da Polícia Civil e da universidade,que até o ano de 2026 não vieram à público. 

Apesar de elogiar o acolhimento psicológico e jurídico oferecido pela Ouvidoria Feminina da UFOP, Lara afirmou à época que os processos administrativos nunca avançaram de maneira efetiva.
 

A cultura republicana e os limites da universidade

Historicamente associadas ao acolhimento estudantil e à construção de vínculos, as repúblicas também aparecem, frequentemente, ligadas a denúncias de violência de gênero, racismo e LGBTfobia. “Esses espaços, apesar de historicamente serem espaços de acolhimento, são também historicamente, ambientes onde a violência acontece”, afirma Karina.

Ela destaca que muitas universidades, incluindo a UFOP, ainda tratam o tema de forma fragmentada. “Hoje, não existe uma estrutura transversal que pense gênero na Universidade. Cada setor tem a sua função, mas não existe uma política integrada”. 

A crítica chega inclusive na ausência de visibilidade dada pela UFOP às próprias ações de enfrentamento à violência. 
 

 

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Se uma pessoa entrar hoje no site da UFOP, ela não consegue entender, saber o que a universidade faz em relação a gênero e sexualidade

Karina Barbosa, coordenadora do Ariadnes


 

Ouvidoria Feminina: acolhimento pioneiro, mas insuficiente

Criada diante do aumento de casos de violência de gênero no contexto universitário, a Ouvidoria Feminina da UFOP tornou-se uma das iniciativas pioneiras entre universidades federais brasileiras.

O órgão oferece acolhimento jurídico e psicológico para mulheres em situação de violência, além de auxiliar na formalização de denúncias administrativas e criminais. 

Dependendo do caso, as denúncias podem ser encaminhadas para Processos Administrativos Disciplinares(PAD), sindicâncias ou mediações institucionais. 

A UFOP oferece ainda apoio psicológico por meio da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace) e que a Ouvidoria Feminina atua no recebimento, encaminhamento e acompanhamento das denúncias.

A universidade destaca ainda que possui uma normativa específica para casos de violência contra mulheres desde 2019. A Resolução CUNI nº 2.249 instituiu procedimentos voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher no âmbito institucional e à articulação com a Rede Municipal de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher.

Apesar disso, a própria instituição afirma que trabalha na elaboração de uma política mais ampla e integrada para reunir iniciativas que atualmente funcionam de maneira dispersa. Para estudantes e especialistas, o medo da exposição, da revitimização e da falta de respostas concretas faz com que muitos casos nunca cheguem oficialmente à universidade.
 

Banco Vermelho e o que mais? 

No dia 9 de março deste ano, a UFOP instalou em todos os campi da Instituição, os Bancos Vermelhos, como parte de uma ação de conscientização e enfrentamento à violência contra mulheres. O propósito da ação seria “romper a invisibilidade do problema e provocar a reflexão na sociedade sobre a gravidade da violência contra a mulher”, segundo nota da universidade. 

A campanha, que traria supostamente uma mobilização institucional, possui informações escritas nos bancos dispostos pela Universidade, sobre como denunciar casos de violência de gênero. Apesar da repercussão e movimentação social gerada pela ação, Karina Barbosa critica e diz  entender a importância de campanhas simbólicas e ações de conscientização, mas que elas sozinhas não bastam. 

 

O problema vem quando elas se tornam um único passo. Um banco sem ações para um contexto maior, vira apenas um banco

Karina Barbosa

 

Além da instalação dos Bancos Vermelhos nos campi, a UFOP afirma ter realizado, desde o ano passado, ações de orientação e capacitação promovidas pela Ouvidoria e pela Corregedoria, além de campanhas institucionais de comunicação e produção de materiais audiovisuais sobre violência de gênero.

A universidade também reconhece que as informações sobre essas iniciativas nem sempre estão facilmente acessíveis ao público. Segundo a instituição, a ampliação da visibilidade das ações e dos canais de acolhimento deverá integrar o futuro Plano e Política de Enfrentamento das Violências de Gênero e Outras Formas Discriminatórias.

Mais do que discutir casos específicos, o episódio da UFMT e os relatos dentro da UFOP escancaram uma realidade que apesar de avanços, permanece sendo sofrida por diversos alunos da Universidade. Karina afirma que desde que chegou à Ouro Preto, tem ouvido relatos sistemáticos, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas(ICSA), campus em que leciona, que iriam desde violências de gênero das mais “corriqueiras como assédio sexual, passando por importunação sexual,extrativismo intelectual e chegando a estupros, mais de um”. E, segundo ela, “historicamente, estruturalmente falando, o jeito de lidar com essas denúncias não tem sido melhor”.

Questionada sobre os desafios ainda existentes, a UFOP reconheceu que as políticas e estruturas atualmente disponíveis não são suficientes para enfrentar integralmente a violência de gênero no ambiente universitário. A instituição afirma, entretanto, que novas medidas estão em elaboração e que a construção de uma política institucional unificada é uma das prioridades para os próximos anos.

Enquanto isso, estudantes, pesquisadoras e vítimas seguem cobrando que a universidade avance não apenas no acolhimento, mas na prevenção, na transparência e na efetividade das respostas oferecidas a quem denuncia.
 

 

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