Mariana (MG), 21 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Comissão da ALMG visita distritos para averiguar abusos da mineração

Entre o adoecimento mental em Antônio Pereira e as tramas de corrupção em Botafogo, Comissão de Meio Ambiente colhe subsídios para medidas legislativas, enquanto comunidades celebram vitórias judiciais contra o avanço predatório

Fotografia colorida em plano médio capturada ao ar livre. No centro da imagem, a deputada estadual Bella Gonçalves, uma mulher branca de cabelos ondulados e óculos de sol, fala para um grupo de pessoas. Ela veste uma blusa rosa clara, calças de tom bege e carrega uma garrafa de água e um casaco branco no braço.


O grupo, composto por cerca de vinte pessoas de diversas etnias e gêneros, está posicionado em semicírculo ao redor dela, ouvindo atentamente. Alguns vestem roupas casuais, como camisetas coloridas e jeans, enquanto outros usam uniformes de trabalho, incluindo coletes refletivos amarelos e laranjas, e camisas com identificação institucional.


O encontro ocorre em um terreno de cascalho e terra com vegetação rasteira. Ao fundo, observa-se uma paisagem montanhosa sob um céu nublado. À esquerda, parte de um veículo verde é visível.

A visita ocorreu ao longo desta segunda-feira, nos distritos de Antônio Pereira e Botafogo - Foto: Ramon Bitencourt/ALMG

A visita técnica da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aos distritos de Antônio Pereira e Botafogo, realizada nesta segunda-feira (04), consolidou um diagnóstico alarmante sobre a gestão de danos e o avanço minerário em Ouro Preto.

Para além do risco físico das estruturas, o que se observou foi uma estratégia sistemática de controle territorial que a deputada Bella Gonçalves(PT) classificou como um "modus operandi para ir diminuindo a presença da população e ampliando o controle do território pelas mineradoras".

Antônio Pereira: O colapso da saúde e do distrito

No centro da crise em Antônio Pereira está a Barragem Doutor, da mineradora Vale. Com um volume de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos, mais do que o dobro do que vazou em Brumadinho e 75% da quantidade de rejeito que tinha na Barragem de Fundão, a estrutura é mantida sob um processo de descaracterização que, embora avance tecnicamente, falha em mitigar o impacto humano e ambiental.

Descaracterização da Barragem Doutor deve terminar apenas em 2029 - Foto: Lui Pereira/Arquivo Agência Primaz

Há quase seis anos, desde agosto de 2020, com a elevação do nível de emergência da Barragem Doutor e com o início do processo de remoção dos moradores da área de inundação, a Agência Primaz acompanha o drama das famílias do distrito, que aos poucos segue por um processo de descaracterização, com a demolição de casas e com a mudança da lógica urbana do distrito, com quarteirões inteiros efetivamente controlados pela mineradora.

A comunidade relatou uma “pandemia de adoecimento mental”, onde a insegurança é alimentada por simulados de evacuação que, em vez de preparar, geram pânico e traumas, inclusive em crianças.

A moradora Carla Dayane Moreira Dias expressou o terror constante vivido pela população: “A cada trovoada, a gente pensa que é o rompimento da barragem”. Já Maria Helena Rocha Ferreira reforçou a crítica à falta de transparência e ao descaso da empresa: “A empresa não respeita a comunidade. Está ficando inviável viver aqui. Estou me vendo obrigada a ir embora”, relatou.

A crítica à mineradora aprofunda-se na questão das indenizações. Segundo a moradora Ana Carla Cota, os acordos extrajudiciais pressionados pela Vale priorizam o valor de mercado, mas falham no suporte humano: “As indenizações cobrem apenas o valor dos imóveis, sem considerar os danos à saúde mental das pessoas que precisam mudar de suas casas”, afirma.

Enquanto as negociações se arrastam, com 181 famílias indenizadas atpe o momento, segundo a mineradora, as áreas evacuadas na Zona de Autossalvamento (ZAS) tornaram-se um símbolo do abandono: imóveis depredados e a falta de manutenção básica transformaram a região em foco de doenças. O descaso é quantificável: em 2024, o distrito concentrou 85% dos casos de dengue de todo o município de Ouro Preto.

Diante disso, a deputada Bella Gonçalves afirmou que a barragem é uma "bomba-relógio" e que pedirá celeridade nos processos judiciais para garantir os direitos dos atingidos.

O avanço da mineração sobre Botafogo

Em Botafogo, a discussão elevou-se para o campo da integridade institucional e do patrimônio espeleológico. O território, que vive sob a ameaça de sete projetos minerários, viu na recomendação do Ministério Público Federal (MPF) uma vitória histórica para a suspensão imediata de licenças. A fundamentação do MPF baseia-se em falhas graves e na omissão deliberada de informações sobre o patrimônio arqueológico e cavernas da Serra de Ouro Preto.

Uma imagem aérea de drone, tirada do alto, mostra uma extensa área de extração de minério na encosta de uma montanha, localizada no subdistrito de Botafogo, em Minas Gerais. A área é operada pelas empresas HG Mineração e Mineração Patrimônio. A paisagem é dominada por uma rede de estradas de terra avermelhadas que serpenteiam por várias camadas de cortes na rocha, formando degraus ou bancadas. Essas estradas cobrem a maior parte da encosta, substituindo a vegetação natural que ainda sobrevive em algumas áreas verdes adjacentes.


No topo da área de mineração, à esquerda, e na parte inferior central, pequenas figuras amarelas indicam máquinas escavadoras e caminhões de transporte de minério em operação. Na base da montanha, no canto inferior direito, uma rodovia asfaltada corta a paisagem com carros e caminhões visíveis, ligando a área de mineração a outras regiões. Próximo à estrada, há pequenas instalações de apoio e o que parece ser um pequeno assentamento habitacional ou de escritórios, com telhados brancos e beges. A foto captura a escala monumental da intervenção humana na natureza, misturando o verde da floresta original com as cores vibrantes e as formas geométricas da exploração mineral.
HG Mineração e Patrimônio Mineração, investigadas na Operação Rejeito, atuam em Botafogo - Foto: Lui Pereira/Arquivo Agência Primaz

O caso da Patrimônio Mineração, investigado na Operação Rejeito da Polícia Federal por suspeita de pagamento de R$500 mil em propina a servidores estaduais, exemplifica a fragilidade dos processos de licenciamento. A denúncia de que a empresa teria soterrado uma caverna na calada da noite durante um evento científico local tornou-se o emblema da "mineração predatória" que a comunidade tenta barrar.

Como resposta a esse histórico de abusos e à tentativa de "blindagem" das mineradoras em marcos regulatórios municipais, a ALMG agora articula uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para o tombamento definitivo da Serra como patrimônio natural do Estado.

A medida visa garantir que a proteção dos aquíferos e do patrimônio paisagístico de Ouro Preto não dependa apenas de decisões judiciais liminares, mas de uma salvaguarda constitucional permanente.

Já existem ao menos duas propostas legislativas para a proteção da Serra do Botafogo e da Serra de Ouro Preto. Uma delas, de iniciativa popular, é articulada pela comunidade desde junho de 2025 e está em processo de coleta de assinaturas para propor o tombamento da Serra de Ouro Preto como patrimônio hídrico, ambiental, cultural, histórico, arqueológico e paisagístico.

Desde 2023, tramita na ALMG um projeto do deputado estadual, Leleco Pimentel (PT). O PL 1116/2023 pretende declarar a Serra do Botafogo como patrimônio ambiental, histórico, cultural e, crucialmente, hídrico do estado. A proposta também pode ajudar na redução de danos causados pela mineração predatória no território.

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