Mariana (MG), 16 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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HidroGeoDia 2026 reúne centenas na Serra do Botafogo

Entre caminhadas por nascentes, análises químicas e oficinas ancestrais, moradores e pesquisadores celebraram a preservação dos aquíferos em Ouro Preto

Uma fotografia colorida, capturada sob a luz do dia, mostra a Capela de Santo Amaro do Botafogo, uma construção histórica de arquitetura colonial simples, localizada em uma área rural e montanhosa.

A capela possui paredes brancas, um telhado de telhas de barro e uma cruz de madeira no topo da fachada. A porta principal e as janelas pequenas no andar superior são pintadas de azul-turquesa. No lado esquerdo da fachada, há um pequeno campanário de pedra com um sino de bronze.

À frente da igreja, um grupo numeroso de aproximadamente 40 pessoas está reunido no gramado. Elas estão de costas ou de perfil para a câmera, voltadas em direção à entrada da capela, como se participassem de uma visita guiada ou evento comunitário. O grupo é diverso, vestindo roupas casuais, mochilas e bonés.

O cenário de fundo é composto por uma vegetação densa e morros verdes que se estendem sob um céu azul claro e sem nuvens. As sombras das pessoas e da igreja se projetam de forma alongada no gramado à esquerda, indicando que o sol está posicionado lateralmente.

Contexto Histórico: A Capela de Santo Amaro do Botafogo é um importante marco histórico e cultural, frequentemente associada a roteiros de preservação e turismo rural na região de Ouro Preto e Mariana, representando a fé e a arquitetura singela do período colonial mineiro.

Pela segunda vez, Botafogo recebe o HidroGeoDia - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

No último sábado (18), a histórica Capela de Santo Amaro do Botafogo, em Ouro Preto, foi palco da quarta edição do HidroGeoDia. O evento, que reuniu moradores, estudantes e cientistas, aconteceu sob um clima de esperança e resistência.

Um ano após o soterramento de uma caverna na região pela Mineradora Patrimônio, cujas atividades encontram-se atualmente embargadas, o atual momento da comunidade inspira esperança de um novo momento, de restauração ambiental e de proteção da serra.

A mobilização buscou dar visibilidade às águas subterrâneas, o "tesouro invisível" que abastece milhares de pessoas na região e pode garantir a segurança hídrica das futuras gerações.

Análise participativa da qualidade da água

Durante a caminhada pelo território, a primeira parada foi no Ribeirão do Funil para acompanhar o monitoramento hídrico participativo. A mestranda em geologia Maria Tereza e a professora Louise Mendes demonstraram testes físico-químicos, como pH e turbidez. "A maior importância de trazer um equipamento desse é mostrar esses parâmetros que são invisíveis", explicou Maria Tereza, destacando que a água estava preliminarmente saudável, com baixa turbidez e com pH dentro dos parâmetros.

As pesquisadoras analisaram as águas do Ribeirão do Funil durante o evento - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A professora Louise, que também pesquisa o impacto da poeira em regiões mineradoras, destacou a importância de levar a ciência para dentro das casas. "A maior importância de trazer um equipamento desse é mostrar esses parâmetros que são invisíveis. É um trabalho que já vínhamos fazendo há muito tempo, mas é muito legal poder trazer isso para o agora", destacou.

A "caixa d’água" sob nossos pés

Além da caminhada, uma maquete ajudava a demonstrar a formação e a importância dos aquíferos - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

No salão comunitário, maquetes detalhavam a complexa estrutura geológica local. A estudante Jéssica Ribeiro Afonso explicou que a serra funciona como um sistema de filtragem e armazenamento natural. "Temos rochas como a canga, que tem uma porosidade maior e atua como uma esponja, que vai sugar aquela água", descreveu a estudante.

A coordenadora do evento, professora Adivane Costa, reforçou que a preservação dessas áreas é estratégica para as gerações futuras: "Essa serra ela é uma caixa d'água invisível, ela está cheia de água... águas centenárias que podem abastecer milhares de gerações futuras". A geóloga alertou que a mineração em áreas de manancial compromete esse recurso para sempre: "A gente não pode ser imediatista. A estratégia mundial é preservar as águas subterrâneas", explicou.

Biodiversidade e sabedoria ancestral

Na “Tenda da Zoologia” os participantes foram convidados a reconhecer serpentes - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

A "Tenda da Zoologia" trouxe animais da região para desmistificar medos e ensinar convivência. "A gente quer desmistificar esse imaginário popular... a gente fala: mantém distância, não mata", explicou a monitora Alice Romano, citando o papel ecológico de jararacas e escorpiões. 

Os visitantes foram convidados a conhecer e aprender a reconhecer as diferenças entre cobras, diferenciar aquelas que são venenosas das que não são e aprender como manejar esses animais da forma correta, para que se evite matar esses animais e evitar acidentes.

Sementes de esperança e o "bolinho recheado" de vida

O Cacique Danilo Borum-Kren trouxe um pouco do seu conhecimento ancestral à serviço da restauração ambiental - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Um dos momentos mais aguardados foi a oficina de bombas de sementes. Com as mãos no barro, o Cacique Danilo Borum-Kren explicou que a técnica, embora simples, é uma ferramenta poderosa de reflorestamento: "A bomba de semente é uma técnica muito simples... é como se fosse um bolinho recheado, só que de barro, e o recheio é um substrato com semente". Segundo o líder, a lógica é confiar na natureza: quando a chuva chega, o barro derrete e a semente, já em sua "caminha" de nutrientes, tem a chance de brotar e recuperar o verde da serra.

Para o Cacique, o cenário deste ano é motivo de um otimismo cauteloso. Ele relembrou que, na edição anterior, a mineração ainda estava em plena atividade, mas a mobilização surtiu efeito. "Hoje a gente já fala de um processo de recuperação e isso é importante... mostrando que a luta coletiva ela tem peso e ela compensa". No entanto, Danilo deixou um alerta para que a comunidade não se acomode com o embargo atual das mineradoras: "Não quer dizer que a gente tá salvo para sempre. A gente nunca pode baixar a guarda".

A filosofia da "floresta em pé"

Líder de um povo cujo território ancestral abrange as bacias dos rios Doce, das Velhas e Paraopeba, Danilo Borum-Kren reiterou sua visão crítica sobre o modelo econômico da região. "Mineração? Isso é morte disfarçada de progresso. Nossa riqueza está na floresta em pé", afirmou de forma categórica.

Sua fala mais emblemática, que já havia marcado o evento em 2025, voltou a ecoar como um mantra entre os presentes: "A gente não bebe minério de ferro, a gente bebe água". Para ele, o HidroGeoDia no Botafogo não é apenas uma aula de geologia, mas um reencontro de forças para garantir a sobrevivência das futuras gerações e a proteção do "tesouro" que corre por baixo da terra.
 

Avanços e a continuidade da luta

Um dos pontos centrais de discussão durante o evento foi o recém-assinado Decreto nº 9.230, de 17 de abril de 2026, que estabelece limitações administrativas para a criação da Unidade de Conservação Municipal Serra de Ouro Preto. Embora a medida proteja uma área de mais de 3 mil hectares, o desenho atual é alvo de críticas por excluir o epicentro dos conflitos minerários.

O polígono da proposta de Unidade de Conservação Municipal Serra de Ouro Preto deixa de fora o território do Botafogo

A moradora Líria Barros expressou o sentimento de alívio momentâneo mesclado com a necessidade de resistência: "Hoje a gente tá tendo o privilégio de poder olhar para aquilo que a gente quer preservar... Já tivemos algumas vitórias e a luta continua". Para a comunidade, o fato de a área do Botafogo não estar plenamente contemplada no decreto é uma lacuna grave. Benito, outra liderança local, foi enfático ao afirmar que o prefeito assinou o documento "não considerando essa área aqui do Botafogo. Então, nós temos que lutar".

A professora Adivane Costa reforçou que a universidade está ao lado dos moradores para pleitear a revisão dessa delimitação. "Anteriormente a prefeitura teve a iniciativa de fazer uma parte da Serra Unidade de Conservação. Agora a gente está buscando a maior participação da comunidade porque a gente não concorda com o perímetro", explicou a coordenadora, destacando que a proteção precisa ser integral para garantir o futuro das águas subterrâneas.

O decreto se soma às discussões do Novo Plano Diretor do município, que incluiu as poligonais das mineradoras HG e Patrimônio como de interesse minerário. Junto da investigação sobre o acerto entre prefeitura e mineradora HG dentro do CODEMA, o decreto com a exclusão das áreas de mineração coloca em dúvida as reais intenções do poder público para o território.

Participação universitária

A presença dos estudantes da UFOP foi marcante e atraiu um número maior que 2025, com dois ônibus da universidade. Para a professora Adivane, a repercussão da última edição trouxe um novo fôlego à luta da comunidade e ajudou a estimular novas pesquisas e novos trabalhos acadêmicos na comunidade.

O HidroGeoDia 2026 atraiu um grande número de estudantes - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

Manu Garcia de Andrade, estudante de Ciências Biológicas, destacou como o evento foi transformador: "Eu fiz um seminário para uma disciplina sobre [o tema] e é muito legal ver pessoalmente". Para ela, o contato direto com o território é essencial: "É muito importante vir nessas coisas e principalmente a UFOP apoiar tanto", explicou.

Manu também se sensibilizou com a realidade da comunidade: "A galera daqui cuida muito bem. É muito importante ver a comunidade, porque o que eles passam, a gente nem imagina aqui". A futura bióloga reforçou que a universidade cumpre um papel social ao divulgar essas causas: "Ajudar nessa batalha é muito importante... é bom que a UFOP divulga".
 

Ecoturismo como alternativa econômica

Além da ciência, o HidroGeoDia movimentou a economia da comunidade com uma feirinha de produtos da agricultura familiar e vestuário temático. Para Líria, o sucesso do evento prova que existem caminhos além da extração mineral: "Isso está movimentando a economia do lugar... vendo que o ecoturismo e o turismo pedagógico podem sustentar a economia aqui independente da mineração", comemorou.

Além das atividades científicas, uma feirinha vendia quitandas e produtos da agricultura familiar - Foto: Lui Pereira/Agência Primaz

O evento também marcou o lançamento do curso de extensão "Educação, Cultura e Gestão das Águas em Comunidades", uma parceria da UFOP com o Ministério Público Federal para capacitar lideranças locais na defesa de seus territórios. Como resumiu a estudante Manu Garcia de Andrade: "Ajudar nessa batalha é muito importante".

Sobre o HidroGeoDia

O HidroGeoDia é uma iniciativa internacional criada pela Associação Internacional de Hidrogeólogos (IAH) em comemoração ao Dia Mundial da Água. O objetivo é sensibilizar a sociedade e as autoridades sobre a importância vital das águas subterrâneas (aquíferos), que embora não sejam visíveis, são fundamentais para o abastecimento humano e a manutenção dos ecossistemas. Em Ouro Preto, o evento é coordenado pela Cátedra UNESCO Água, Mulheres e Desenvolvimento da UFOP, focando na gestão participativa e sustentável em áreas impactadas pela atividade minerária.

Um dos desdobramentos do HidroGeoDia 2026 foi o lançamento oficial do curso de extensão "Educação, Cultura e Gestão das Águas em Comunidades". A iniciativa, apresentada pela UFOP através da Cátedra UNESCO: Água, Mulheres e Desenvolvimento (NUCAT/UFOP), conta com o apoio estratégico da Pró-Reitoria de Extensão e do Ministério Público Federal, por meio do Programa Participa Minas. O curso foi desenhado para promover o empoderamento, especialmente de mulheres que vivem em territórios impactados pela expansão minerária, incentivando uma compreensão crítica e práticas de gestão sustentável dos recursos hídricos.

A formação terá uma carga horária de 100 horas, será totalmente gratuita e conferirá certificado aos participantes. O formato é híbrido, com aulas remotas via Google Meet ocorrendo às quartas-feiras, das 18h30 às 20h30, no período de 29 de abril a 29 de julho de 2026. O conteúdo está estruturado em três módulos fundamentais:

  1. Águas em territórios de expansão minerária;
  2. Gestão integrada das Águas;
  3. Água e Saúde.

Além da base teórica ministrada por doutores e especialistas da UFOP, UFV e UFVJM, o curso oferece uma forte vertente prática. Estão previstas duas oficinas presenciais: uma focada em saneamento rural com a implantação de Tanques de Evapotranspiração (TEVAP) e outra sobre o cultivo agroecológico de plantas medicinais para fortalecer quintais produtivos. Os alunos também receberão treinamento para a elaboração de seus próprios projetos comunitários de conservação. As inscrições para os interessados em se tornar guardiões de seus territórios seguem abertas até o dia 26 de abril de 2026 através do link.
 

Confira Mais fotos do evento:

Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
Foto: Lui Pereira/Agência Primaz
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