Mariana (MG), 13 de agosto de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Entrevista Primaz - Letícia Ribeiro, pesquisadora do projeto "A Ditadura em Minas Gerais"

Entre arquivos e ruas, a mestre e historiadora Letícia Ribeiro revela a ditadura escondida na história de Ouro Preto

Foto: Gisele Santoli

Em entrevista à Agência Primaz, historiadora fala sobre sua trajetória, as pesquisas do projeto "A Ditadura em Minas Gerais" e explica como o Festival de Inverno, hoje símbolo da cultura, também foi palco de censura, perseguição e resistência durante o regime militar.

As ruas de Ouro Preto estão novamente ocupadas por estudantes, artistas e turistas durante mais uma edição do Festival de Inverno. O cenário é de apresentações culturais, oficinas e debates. Mas, por trás da imagem consolidada da cidade como patrimônio histórico e polo cultural, existe uma história pouco conhecida por quem passa diariamente por seus casarões e praças.

Foi justamente esse outro olhar que a historiadora Letícia Ribeiro apresentou nesta edição da Entrevista Primaz. Pesquisadora do projeto "A Ditadura em Minas Gerais: História, Memória e Historiografia", ela mostrou como documentos, arquivos e espaços urbanos revelam que Ouro Preto e Mariana também viveram episódios de repressão, vigilância e resistência durante a ditadura civil-militar (1964-1985).
 

Ao longo da conversa, Letícia também contou como a própria trajetória acadêmica se cruzou com esse tema. Quando ingressou no curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em 2017, ainda não imaginava que faria da ditadura seu principal objeto de pesquisa.

Foi somente nos últimos períodos da graduação, durante uma iniciação científica sobre o movimento Diretas Já, que encontrou o caminho que seguiria no mestrado e, posteriormente, no projeto que hoje reúne pesquisadores da UEMG, UFMG, UFOP e UFSJ para investigar como a repressão se manifestou em Minas Gerais.

Eu não tinha um interesse pré-definido quando entrei na faculdade. Foi só no final da graduação que comecei a trabalhar diretamente com os anos da ditadura

Letícia Ribeiro, historiadora

A pesquisa desenvolvida no mestrado analisou como livros didáticos publicados entre 1975 e 1995 apresentavam o processo de redemocratização brasileira. O estudo recebeu menção honrosa da Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH) e ajudou a explicar como parte da memória coletiva sobre o fim do regime foi construída.

Segundo ela, os livros dedicavam pouco espaço ao tema e, muitas vezes, tratavam a redemocratização de forma superficial.

Os textos eram muito curtos. Em alguns casos, o processo de redemocratização sequer aparecia. As crianças que estudaram nesses livros são adultos hoje. Isso demonstra um pouco de como essa memória foi ensinada e de como ela reverbera nos dias atuais

Letícia Ribeiro, historiadora

Para a pesquisadora, compreender essa construção da memória ajuda a explicar por que ainda existem discursos que relativizam ou negam a violência da ditadura.

Quando você não lembra, você não conhece. E aquilo passa a ser facilmente questionado.

Letícia Ribeiro, pesquisadora do projeto A Ditadura em Minas Gerais

A ditadura para além do eixo Rio-São Paulo

Durante a entrevista, Letícia destacou que um dos principais objetivos do projeto "A Ditadura em Minas Gerais" é romper com a ideia de que a repressão aconteceu apenas nas grandes capitais.

Enquanto grande parte das pesquisas se concentra nas grandes capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e até mesmo Belo Horizonte, o grupo busca entender como o regime militar atuou também em cidades do interior, como Ouro Preto e Mariana, além de investigar o funcionamento da repressão dentro de instituições públicas, câmaras municipais e universidades.

"Parte da iniciativa do projeto é entender como a ditadura aconteceu para além da capital e dos grandes centros. Queremos compreender como isso ocorreu nos municípios menores e nas instituições de cada cidade."

Ao assumir as pesquisas desenvolvidas na UFOP, Letícia passou a investigar especialmente a atuação da ditadura na antiga Escola de Minas e na Escola de Farmácia, instituições que posteriormente deram origem à universidade.

O trabalho levou Letícia ao interior de arquivos públicos, onde encontrou atas, relatórios, folhas de pagamento, correspondências e documentos produzidos pelos órgãos de repressão. Entre os registros que mais a marcaram estão os questionários aplicados logo após o golpe de 1964 a estudantes, professores e funcionários.

Eram perguntas muito diretas: se a pessoa era sindicalizada, o que achava do governo, se conhecia alguém com atividades consideradas suspeitas. Ver esses documentos foi muito impactante

Letícia Ribeiro, historiadora


 A experiência também revelou a dimensão humana da pesquisa histórica. "É um trabalho muito sério, porque você lida com o passado traumático do outro. Existem famílias que acompanham essas pesquisas e veem seus parentes retratados nelas", ponderou a pesquisadora. 

Por isso, Letícia afirma veemente que estudar a ditadura é também um compromisso com a verdade histórica.

"Você precisa ler aquilo, você precisa afirmar aquilo, você precisa estudar aquilo para dizer: aconteceu."
 

O Festival de Inverno entre a arte e a repressão

A entrevista ganha ainda mais atualidade por acontecer durante o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Hoje associado à produção artística e ao encontro entre diferentes linguagens culturais, o festival nasceu em 1967, quando o país já vivia sob a ditadura militar.

Segundo Letícia, esse contexto produziu uma contradição que marcou toda a história do evento. Ao mesmo tempo em que reunia artistas de diferentes partes do Brasil e do exterior para experiências de criação e formação, o festival era acompanhado de perto pelos órgãos de repressão.

O festival vive essa ambiguidade. Havia uma liberdade artística muito grande, mas também a presença constante do DOPS e de outros órgãos de repressão.

Letícia Ribeiro, historiadora e pesquisadora

Além da programação oficial, existia uma intensa movimentação paralela, realizada principalmente à noite e nos fins de semana, que acabou entrando em choque com setores conservadores e religiosos da cidade.

O episódio fez com que os eventos que se estendiam pela madrugada a fora, passasse a ser chamado de “Festival de Inferno”, numa tentativa de associar as manifestações culturais à degradação dos costumes.

Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em 1971, quando integrantes do grupo norte-americano Living Theatre foram presos em Ouro Preto. Convidado inicialmente para participar da programação oficial, o coletivo acabou excluído do festival, mas permaneceu na cidade realizando apresentações independentes.

Segundo as pesquisas apresentadas por Letícia, agentes do DOPS invadiram a casa onde os artistas estavam hospedados e plantaram drogas no local antes da prisão. O caso ganhou repercussão internacional.

O Arquivo Público Municipal guarda telegramas enviados de várias partes do mundo perguntando o que estava acontecendo em Ouro Preto.

Letícia Ribeiro, pesquisadora

Os integrantes do grupo foram levados para Belo Horizonte e, posteriormente, deportados. A prisão se tornou um dos episódios mais conhecidos da relação entre o Festival de Inverno e a repressão durante o regime militar.
 

A cidade guarda histórias que poucos conhecem

Mais do que produzir artigos acadêmicos, Letícia busca levar esse conhecimento para fora da universidade. Uma das principais iniciativas do projeto é um roteiro guiado que percorre diferentes pontos de Ouro Preto relacionados à ditadura.

O trajeto passa por espaços como a Praça Tiradentes, a Escola de Minas, a Escola de Farmácia, o Grêmio Literário, a República dos Deuses, conectando documentos históricos aos lugares onde ocorreram manifestações, perseguições e ações da repressão.

A proposta é ampliar a leitura tradicional da cidade. "A gente quer mostrar Ouro Preto para além da arquitetura colonial e das narrativas da Inconfidência", conta. Segundo ela, a reação do público demonstra como essa memória permanece desconhecida.

A principal coisa que as pessoas falam no final é: 'Eu jamais pensei que isso tudo tinha acontecido aqui'. Depois disso, elas passam a olhar a cidade de outra forma.

Letícia Ribeiro

Além dos roteiros, o projeto divulga pesquisas nas redes sociais e prepara um documentário sobre a ditadura em Ouro Preto, aproximando o conhecimento produzido na universidade da população.

Memória como compromisso com a democracia

Ao longo da entrevista, Letícia também refletiu sobre os desafios de transformar pesquisas acadêmicas em uma linguagem acessível. Ela explica que cada publicação produzida pelo projeto é pensada para alcançar pessoas que nunca tiveram contato com o tema. "Quando escrevo, penso em como alguém que nunca estudou ditadura pode compreender aquilo", esclarece.

Para a historiadora, preservar documentos, divulgar pesquisas e ocupar os espaços públicos com debates sobre memória é uma forma de enfrentar o negacionismo e fortalecer a democracia.

Mais do que revisitar o passado, trata-se de impedir que ele seja apagado. Letícia também falou sobre a proposta do DCE, baseada no relatório final do Grupo de Trabalho da UFOP, intitulado “A UFOP e a Luta Contra a Ditadura Militar”, de retificação do nome do Largo Vicente Ellena Trópia, que atuou como apoiador ativo do regime instaurado após o golpe de 1964.

Apesar dessas evidências, o Largo da Escola de Farmácia segue nomeado em homenagem ao ex-diretor, o que, de acordo com os estudantes, contraria o compromisso com a memória e a justiça histórica.

Ele era conhecido como o homem da ditadura em Ouro Preto. Tem registros de professores que foram perseguidos e e observados por mais de 10 anos. Pensa se viver com esse medo inerente por 10 anos, né? Causado por ali um professor que agora tem uma placa que nomeia um ar na cidade, numa região muito central, né? Que todo mundo passa, que turista passa, todo mundo minimamente vai ter questionar quem é essa pessoa, né?

Letícia Ribeiro, pesquisadora

No encerramento da conversa, ela resumiu o que espera deixar como legado de seu trabalho.

"Se pelo menos eu despertar a curiosidade de alguém para entrar em um arquivo público, pesquisar esse tema, ler a comissão da verdade, estudar sobre e continuar esse trabalho, eu já fico feliz."

O público pode acompanhar o projeto através das redes sociais e a íntegra da Entrevista Primaz com Letícia Ribeiro já está disponível abaixo no YouTube, no Spotify e em todas as plataformas de podcast.

 

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