Mariana (MG), 21 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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DCE UFOP pede retirada de homenagem a apoiador da ditadura

Os estudantes lançam abaixo-assinado com pedido de mudança do nome do Largo Vicente Ellena Tropia com base em relatório que aponta colaboração com o regime militar

Fachada histórica da Escola de Farmácia, em estilo arquitetônico clássico, pintada em azul e branco. O prédio possui janelas altas com arcos, detalhes ornamentais e um pequeno balcão central com bandeira. Na parte superior, há um símbolo verde decorativo. Fios elétricos cruzam a frente da imagem, e o céu aparece claro ao fundo.

Escola de Farmácia da UFOP, localizada no Largo Vicente Ellena Tropia - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz

O Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (DCE UFOP) lançou um abaixo-assinado, solicitando à Câmara Municipal de Ouro Preto, a mudança do nome do Largo Vicente Ellena Tropia, localizado em frente à histórica Escola de Farmácia de Ouro Preto.

A iniciativa busca retirar a homenagem ao ex-diretor, apontado como colaborador da ditadura militar brasileira, e preservar a memória de estudantes vítimas de violações durante o período.

Relatório aponta que ex-diretor era um colaboracionista

Segundo o DCE, a proposta se baseia no relatório final do Grupo de Trabalho da UFOP, intitulado “A UFOP e a Luta Contra a Ditadura Militar”, elaborado em parceria com a Comissão da Verdade em Minas Gerais. O documento reúne provas documentais e testemunhais que indicam que Vicente Ellena Tropia atuou como apoiador ativo do regime instaurado após o golpe de 1964.

Apesar dessas evidências, o Largo da Escola de Farmácia segue nomeado em homenagem ao ex-diretor, o que, de acordo com os estudantes, contraria o compromisso com a memória e a justiça histórica.

Essa avaliação é reforçada pelo próprio relatório, que sintetiza como a trajetória de Tropia consolidou sua imagem como principal representante dos interesses do regime militar na comunidade acadêmica e política de Ouro Preto, passando inclusive a ser identificado como o “homem da ditadura em Ouro Preto”.

O relatório justifica essa recomendação ao afirmar que o ex-diretor foi um grande apoiador da ditadura instalada em 1964 ao atuar como colaborador de órgãos de repressão, colocando em risco a integridade dos estudantes.

Por considerar a homenagem atual inadequada, o texto recomenda oficialmente que a UFOP solicite à Câmara Municipal de Ouro Preto a mudança de nome do "Largo Vicente Ellena Tropia". Essa ação é proposta como uma forma de garantir o reconhecimento e a preservação da memória dos estudantes que foram vítimas de violações durante o regime militar

A UFOP e a Luta Contra a Ditadura Militar

O relatório final do GT UFOP, elaborado em 2017, documenta a resistência e a repressão política na cidade de Ouro Preto durante a ditadura militar brasileira. O texto analisa como o movimento estudantil e as tradicionais repúblicas universitárias se tornaram centros de mobilização contra o regime autoritário. 

O documento destaca graves violações de direitos fundamentais sofridas por alunos e professores, além de detalhar o aparato de vigilância institucionalizado na universidade. Além disso, o relatório contextualiza as tensões sociais locais, evidenciando as conexões entre a comunidade acadêmica, lideranças sindicais e grupos políticos progressistas da época. 

O documento também resgata memórias de prisões e perseguições, como a do ex-aluno da República dos Deuses, Armando Lopes Farias, recentemente registrado em um documentário. O documento serve como um instrumento de justiça histórica para a região.

Atuação de Tropia durante a ditadura

O relatório aponta que Vicente Ellena Tropia, membro da União Democrática Nacional (UDN), teve participação direta na consolidação do regime autoritário em Ouro Preto. À época vereador, ele atuou na articulação de um movimento dentro da Câmara Municipal que resultou na cassação de cinco parlamentares do PTB, em um episódio descrito como um “pequeno golpe”.

Além disso, propôs homenagens a figuras centrais da ditadura, como o marechal Castelo Branco e o general Olímpio Mourão Filho, exaltando a atuação dos militares na derrubada do governo democrático.

Em 1964, a Escola de Farmácia instaurou uma comissão de inquérito presidida por Tropia, que enfrentou divergências internas e não produziu, à época, um relatório incriminador. Posteriormente, integrantes do grupo passaram a denunciá-lo por práticas administrativas e políticas.

Em 1966, Tropia assumiu a direção da escola por nomeação presidencial, marcando uma mudança de postura: a gestão passou a atuar de forma mais ativa e ideológica, com vigilância constante sobre estudantes e docentes.

“Homem da ditadura” e atuação política

A atuação de Tropia extrapolou o ambiente acadêmico. O relatório aponta que sua identificação como o “homem da ditadura” em Ouro Preto se deu tanto pela atuação política quanto pela colaboração com órgãos de segurança.

Ele manteve contato direto com estruturas como o DOPS, o SNI e comandos militares, além de participar ativamente de medidas políticas alinhadas ao regime. Para grupos que lutavam pela redemocratização, sua atuação era vista como autoritária, com uso do cargo para intimidar opositores.

Memória e recomendação oficial

O Grupo de Trabalho destaca que a cidade foi um importante pólo de resistência durante a ditadura, com forte atuação do movimento estudantil e das repúblicas universitárias. O documento registra casos de perseguições, prisões e violações de direitos fundamentais.

Como conclusão, o relatório recomenda oficialmente a mudança do nome do Largo Vicente Ellena Tropia, considerando a homenagem incompatível com a memória das vítimas do regime.

Com o abaixo-assinado, o DCE da UFOP busca pressionar o poder público municipal a reavaliar a homenagem e promover uma reparação simbólica. A proposta pretende reconhecer a história de repressão vivida por estudantes e reafirmar o compromisso com a memória e os direitos humanos.

Os estudantes convidam a população e a comunidade acadêmica a se mobilizarem através do formulário. Em comentários da publicação, internautas sugerem que a mudança leve o nome de Hélcio Pereira Fortes, ex-aluno da Escola Técnica, atual IFMG e militante estudantil que teve sua vida interrompida durante a ditadura militar brasileira.

Hélcio foi homenageado recentemente em uma cerimônia de diplomação póstuma, que teve como objetivo resguardar e ressaltar a luta estudantil pela democracia.
 

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