Mariana (MG), 19 de julho de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Cantora Marianense Luzzmiila faz da música um manifesto ambiental

A artista lança Donos dos Danos, primeiro single do álbum O Grande Teatro da Vida, que aborda mineração, crise climática e justiça socioambiental

O Grande Teatro da Vida convida o público a refletir sobre uma pergunta fundamental: Que narrativa de mundo estamos ajudando a construir? - Foto: Lucas Almeida

Nascida em Mariana, cidade marcada pelo rompimento da Barragem de Fundão em 2015, a cantora, compositora e performer Luzzmiila faz da própria trajetória o ponto de partida para seu novo trabalho. Lançado no último dia 26 de junho, o single “Donos dos Danos” inaugura uma nova fase artística da musicista e antecipa o álbum O Grande Teatro da Vida, previsto para julho.

Mais do que uma nova canção, “Donos dos Danos” se apresenta como um manifesto sobre os impactos da mineração, a emergência climática e as escolhas que moldam o futuro. Ao lado das artistas mineiras Deh Muss e Tamara Franklin, Luzzmiila mistura música brasileira contemporânea, poesia falada, canção de protesto e elementos da música eletrônica para discutir memória, território e justiça socioambiental.
 

 

Chegou um momento em que percebi que não fazia mais sentido falar apenas das soluções sem falar também das causas dos problemas. Venho de um território marcado pela mineração. Essa história atravessa meu corpo, minha família e minha trajetória. O disco nasce desse lugar

Luzzmiila Luz

 

Antes dos primeiros acordes, Donos dos Danos começa com uma provocação. Em um breve interlúdio em inglês, uma voz questiona: “How dare you…people are dying, ecosystems are collapsing and all you can talk about is money”. A abertura faz referência ao emblemático discurso da ativista climática Greta Thunberg e funciona como um chamado para o universo conceitual de O Grande Teatro da Vida. Na sequência, a resposta vem em português: “Escuta, GRETA GRITA, escuta….”. É a partir desse diálogo que a artista conduz o ouvinte por uma reflexão sobre mineração, crise climática e justiça ambiental. 
 

Da espiritualidade à denúncia ambiental

A mudança marca uma inflexão em sua produção artística. Se em trabalhos anteriores, como o EP “Sintrópica” (2022), a natureza aparecia associada à espiritualidade, à agroecologia e às práticas regenerativas, agora ela assume um tom mais direto ao abordar as contradições do modelo de desenvolvimento baseado na exploração dos recursos naturais.

Essa relação entre arte e desastre ambiental acompanha a cantora desde o início da carreira. Em 2020, Luzzmiila estreou na música com o single Bento Lamento, inspirado em Bento Rodrigues, distrito destruído pelo rompimento da barragem de Fundão. Na época, ela já afirmava que era simbólico ser uma artista nascida em Mariana e cantar sobre uma tragédia que marcou profundamente a história da cidade.

 

Os desastres em nossa região têm que ser lembrados. Não sou uma ativista combativa. O meu ativismo acontece por meio da proposição. Quero que esse momento seja de prece e reflexão

Luzzmiila Luz

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Um álbum construído por mulheres e pela pesquisa

A nova música também chama atenção pela construção coletiva. Todo o álbum foi concebido a partir de uma cadeia criativa formada majoritariamente por mulheres. Além das participações de Deh Muss e Tamara Franklin, “O Grande Teatro da Vida” contará com as vozes das cantoras Josy Anne, Laura Catarina, que esteve em Ouro Preto recentemente para o Festival Conexão Cultural e Bia Nogueira, além da participação especial da peruana Susana Baca, uma das principais referências da música afro-latino-americana.

Nos bastidores, a presença feminina também predomina. A engenharia de som é assinada por Rafaela Prestes, indicada ao Grammy Latino; a masterização ficou a cargo de Kátia Dotto; e as produções eletrônicas foram desenvolvidas por DJ Gabão e Luiza Gaião, que divide a produção musical do disco com Luzzmiila.

A proposta do álbum dialoga diretamente com a pesquisa acadêmica desenvolvida pela artista em seu doutorado em Artes Cênicas. Em seus estudos, ela investiga as relações entre corpo, território, tecnologias imersivas, ecoperformance e práticas regenerativas, temas que também aparecem em performances, ações educativas e projetos desenvolvidos em escolas, museus e galerias.

Segundo Luzzmiila, o objetivo não é rejeitar os avanços tecnológicos, mas refletir sobre quais caminhos a sociedade tem escolhido seguir.
 

 

Não me interessa uma crítica simplista à tecnologia. O que me interessa é perguntar quais tecnologias estamos escolhendo desenvolver e a serviço de quais formas de vida elas operam

Luzzmiila Luz

 

A artista reúne nessa produção mais de quinze anos de atuação em projetos de agroecologia, regeneração territorial e educação ambiental em diferentes regiões da América Latina. Agricultora, ecofeminista e guardiã das sementes crioulas, ela faz dessas experiências a matéria-prima de sua criação artística.

Essa trajetória já havia dado origem ao EP “Sintrópica”, lançado em 2022, cujo título faz referência ao conceito de agricultura sintrópica desenvolvido por Ernst Götsch. Naquele trabalho, canções como “Terra Boa”, “Água Sagrada” e “Sou Semente” apresentavam uma visão de mundo baseada no cuidado com a terra, na espiritualidade e na regeneração dos ecossistemas.

Agora, em Donos dos Danos, essa perspectiva ganha um novo contorno. Sem abandonar o caráter poético, a artista amplia o debate e transforma a música em um espaço para questionar responsabilidades diante da crise climática.

Mais do que antecipar um novo álbum, o lançamento propõe uma reflexão sobre o tempo presente e convida o público a pensar quais narrativas deseja construir para o futuro.

Escute agora o single, enquanto o álbum ainda não chega. 

 

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