Mariana (MG), 15 de outubro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte

Áudios revelados pelo jornal O Estado de Minas e pelo portal ICL Notícias expõem o deputado federal Nikolas Ferreira pedindo a intervenção do banqueiro Daniel Vorcaro em um contrato de US$45 milhões. A revelação acende os holofotes sobre um sofisticado "balcão de negócios" de liberação de licenças ambientais na FEAM, no IPHAN e no IEPHA, cujas provas constam dos relatórios finais da Polícia Federal na Operação Rejeito.

Montagem fotográfica dividida entre uma imagem circular sobreposta à esquerda e uma tomada aérea de paisagem ao fundo. Primeiro plano (à esquerda): Dentro de uma moldura circular com fundo claro, o deputado federal Nikolas Ferreira aparece do peito para cima, vestindo paletó escuro e camisa branca aberta no colarinho. Ele usa no pescoço uma fita grossa verde com uma medalha dourada pendente e segura, com ambas as mãos, uma pasta preta aberta exibindo um diploma/certificado de homenagem. Sua expressão é séria, com os lábios comprimidos. Ao seu lado, aparecem apenas partes dos braços e troncos de outras pessoas em trajes formais. Fundo (à direita e nas bordas): Vista aérea de uma área de mineração em meio a morros com vegetação rasteira e árvores. Destaca-se o contraste entre o verde da serra e a terra avermelhada escavada, cortada por estradas de terra curvas, patamares de extração e pequenas máquinas/veículos operando ao longe. No canto superior direito, uma estrada asfaltada percorre o cume das montanhas.

Em áudio, o deputado Nikolas Ferreira solicita a Vorcaro que intermedie a liberação de um ativo minerário - Fotos: Maria Eduarda Marques/Lui Pereira/Agência Primaz

As engrenagens da mineração predatória na região dos Inconfidentes não giravam apenas nas cavas de ferro de Ouro Preto; elas eram lubrificadas diretamente nos gabinetes de Brasília e Belo Horizonte. De acordo com reportagens publicadas pelo jornal O Estado de Minas e pelo portal ICL Notícias, áudios gravados em março e abril de 2025 revelam o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) intercedendo junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para destravar um ativo de mineração no distrito de Rodrigo Silva.

Ouça o áudio: 

O beneficiário da intermediação política era o então assessor jurídico de seu gabinete na capital federal, o advogado Thiago Rodrigues de Faria. Conforme revelado na mesma reportagem do Estado de Minas, a sociedade individual de advocacia de Thiago Faria havia firmado, em janeiro de 2025, um contrato confidencial com a empresa Gmais Ambiental — apontada pela Polícia Federal como firma de fachada gerenciada ocultamente pelo ex-superintendente da corporação em Minas, Rodrigo de Melo Teixeira, preso na Operação Rejeito.

O contrato de "confiabilidade" previa que o escritório do assessor de Nikolas receberia 25% de comissão (honorários de êxito) sobre uma transação estimada entre US$30 milhões e US$45 milhões. O objetivo era "desembaraçar" e vender a lavra da mineradora Topázio Imperial. Como o próprio nome sugere, a mina é voltada para a exploração do Topázio Imperial, uma gema raríssima, descoberta nos Montes Urais e atualmente ocorre apenas na região de Ouro Preto.

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A gravidade do negócio é técnica e de segurança pública: a área abriga a Barragem de Água Fria, classificada pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma das sete estruturas com maior risco de colapso de todo o país. Construída pelo método de alteamento a montante — o mesmo que colapsou nos desastres/crimes de Mariana e Brumadinho —, a barragem está com as operações paralisadas por uma Ação Civil Pública do MPF. Enquanto os moradores da região de Rodrigo Silva convivem com o pavor de um colapso, o topo do poder tratava das cifras para sua liberação.

O Sindicato do Minério e a captura das agências reguladoras

O contrato de comissão do assessor de Nikolas Ferreira, revelado pela imprensa nacional, conecta-se diretamente ao coração do esquema desmantelado pela Polícia Federal. Conforme detalhado no Relatório Final da Polícia Federal, a organização criminosa (ORCRIM) era liderada pelos empresários Alan Cavalcante do Nascimento, João Alberto Paixão Lages e Helder Adriano de Freitas.

A PF indiciou 34 pessoas em uma estrutura que alcançou o alto escalão regulador, incluindo o diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM), Caio Mário Trivellato Seabra Filho. De acordo com os relatórios policiais, a ORCRIM utilizava Guias de Utilização da ANM de forma irregular para extrair minério à revelia de estudos de impacto cumulativo.

Em mensagens interceptadas na Informação de Polícia Judiciária (IPJ) 052/2026 (análise do celular de Caio Seabra), os investigadores apontam que o grupo monitorava sistematicamente publicações oficiais, pautas ambientais e projetos de lei para neutralizar medidas contrárias aos seus interesses nas serras do Curral e do Botafogo.

A rota da propina na FEAM: "Patrimônio Libório" e "Os 50 do Arthur"

Para fazer avançar as licenças do grupo em Ouro Preto, a ORCRIM comprou as instâncias de controle da Unidade de Regularização Ambiental Leste Mineiro (URA-LM) da FEAM, chefiada por Lirriet de Freitas Libório Oliveira.

As provas da captura da servidora pública são documentais e estão detalhadas na IPJ 017/2026 (celular de Lirriet Libório) e na IPJ 09/2026 (celular de Arthur Delfim):

Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte

A "Filha Adotiva": Lirriet Libório referia-se à Patrimônio Mineração como sua "filha adotiva Patri". No dia 12 de junho de 2024, ao acelerar de forma atípica as demandas da empresa, ela enviou uma mensagem de áudio ao diretor de Gestão Regional da FEAM, Vítor Salum:

"Amanhã meu nome será Patrimônio Libório 😂😂😂 Por contaaaaa", ao que Salum respondeu que ela sairia "gigante" do processo.

As mensagens revelam que a responsável por examinar os riscos ambientais e assegurar a conformidade de toda a documentação do projeto mantinha uma proximidade atípica com o empreendimento Patrimônio. A chefe da Unidade de Regularização Ambiental demonstrava, inclusive, um apego afetuoso e maternal com a própria iniciativa que deveria fiscalizar.

Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte
Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte

O trânsito de documentos "em off"

A IPJ 017/2026 comprova que Lirriet enviava minutas de decisões ambientais e imagens do Parecer Único nº 18/2024 (do processo de licenciamento da Patrimônio) para o celular do diretor operacional da ORCRIM, Helder Freitas, solicitando que ele fizesse "observações e sugestões" antes de sua publicação oficial.

Como recompensa pelo alinhamento, a PF interceptou mensagens de Helder Freitas para Lirriet no dia 30 de maio de 2025: "2027 é vc no comando. Segura a onda viu". O então presidente da FEAM, Rodrigo Gonçalves Franco, resumiu a subordinação em mensagem ao grupo: "ELA EH NOSSA".

Na quebra de sigilo telemático de Rodrigo Franco, a PF localizou uma mensagem de 19 de fevereiro de 2025 enviada a João Alberto Lages, na qual cobrava explicitamente a propina pelo êxito da mina de Ouro Preto:

Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte

Estou precisando de parte dos 500 q combinamos pelo exito da patrimonio'. Na mesma mensagem, Franco cobra repasses para o Diretor de Apoio, Arthur Ferreira Rezende Delfim, que assinou licenças críticas mesmo ciente de irregularidades: 'Os 50 do arthur, pela ajuda dele conosco naquela situacao vale, vc tem previsao? Ele vai ter filho e precisa

Rodrigo Franco


A Polícia Federal aponta que a entrega dos pacotes de propina em dinheiro era coordenada pelo operador financeiro Felipe Lombardi Martins. A análise telemática revela o compartilhamento de localizações e reuniões marcadas em hotéis de luxo de Belo Horizonte, como o H2 Platinum, para a quitação das "mensalidades" do grupo.

O atropelo à Estação Ecológica do Tripuí e o soterramento da caverna

Para liberar as frentes de lavra da Patrimônio Mineração na Serra do Botafogo, a ORCRIM operou em bloco para atropelar a legislação ambiental e histórica. Conforme demonstrado nas análises técnicas da Controladoria-Geral da União (CGU) e na IPJ 010/2026 (celular de Breno Lasmar), o grupo conseguiu neutralizar as restrições da Estação Ecológica Estadual do Tripuí.

Operação Rejeito: entenda a ligação entre Ouro Preto e os gabinetes de Brasília e Belo Horizonte

As mensagens interceptadas revelam que, em 20 de agosto de 2024, Helder Freitas acionou o presidente da FEAM para tratar da Unidade de Conservação (UC) do Tripuí. No dia seguinte, foi realizada uma reunião com a presença do Diretor-Geral do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Breno Esteves Lasmar, de Fernando Baliani (FEAM) e de Lirriet Libório (URA-LM). O encontro, registrado no calendário de Baliani, terminou com o recado de que estava "tudo resolvido", resultando na alteração do Plano de Manejo para excluir a área de mineração do perímetro protetivo da Estação.

A exclusão da área de proteção permitiu o uso da Licença Ambiental Concomitante simplificada (LAC1), assinada em 3 de fevereiro de 2025. Conforme denunciado pela Agência Primaz, a mineradora listou a existência de cavidades subterrâneas nos relatórios arqueológicos enviados ao IPHAN, mas omitiu deliberadamente as mesmas grutas no processo de licenciamento enviado à FEAM para evitar restrições de preservação.

Sob o amparo da licença obtida de forma fraudulenta, na calada da noite entre 21 e 22 de março de 2025 (Dia Mundial da Água), escavadeiras da Patrimônio Mineração invadiram o terreno e soterraram deliberadamente uma caverna natural subterrânea protegida por lei, gerando protestos generalizados das comunidades de Botafogo.

Daniel Vorcaro

Falta esclarecer qual seria o papel do banqueiro no destravamento da mina de Rodrigo Silva, o que se sabe até agora é que existia uma ORCRIM em operação infiltrada em agências regulatórias e em postos de decisão política e ambiental que recebiam valores para agilizar licenciamentos, fragilizar áreas de proteção e simplificar de forma ilegal processor minerários de interesses da mesma organização.

A principal hipótese investigada é que Vorcaro exercia o papel de facilitador no setor minerário, valendo-se de sua influência. Até setembro de 2025, o banqueiro figurou como sócio da Itaminas Mineração. Embora a empresa não tenha sido alvo direto da Operação Rejeito, pairam sobre ela suspeitas relativas à cooptação do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam-MG). 

Na eleição realizada em junho deste ano, a "Associação O Libertador" — entidade ligada à Itaminas e cadastrada sob o e-mail ongs@itaminas.com.br — disputou um assento no órgão. Contudo, devido a questionamentos e contestações na Justiça, a entidade ainda não tomou posse formal da cadeira.

Conforme reportado anteriormente pela Agência Primaz, o aparelhamento de instâncias como o Copam-MG e de diversos conselhos municipais de meio ambiente compromete diretamente a integridade dos processos de licenciamento ambiental. A ocupação estratégica dessas vagas pode facilitar esquemas ilícitos. Um exemplo disso envolve Fernando Benício, representante da Associação Ambiental e Cultural Zeladoria do Planeta que possuía assento no Copam-MG: ele teria negociado seu voto favorável por R$ 5 mil para assegurar a aprovação da Licença de Operação Corretiva (LOC) do empreendimento Fleurs Global Mineração.

O impacto dessa mineração predatória não é apenas abstrato ou financeiro. A Serra do Botafogo, por exemplo, abriga os aquíferos Cauê, Cercadinho e Gandarela, que funcionam como a principal caixa-d'água natural de Ouro Preto. Especialistas e geólogos alertam que o rebaixamento do lençol freático e o avanço das cavas sobre as áreas de recarga ameaçam diretamente o abastecimento do Ribeirão do Funil, responsável pelo suprimento hídrico de mais de 15 mil moradores da sede municipal e de distritos vizinhos. Desastres/crimes como aqueles ocorridos em Mariana e Brumadinho não podem se repetir.

O que dizem os citados

Nikolas Ferreira (Deputado Federal - PL/MG): Confirmou a autenticidade das gravações divulgadas. Declarou ter mantido apenas dois contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro e negou ter qualquer grau de intimidade com ele. Afirmou ter agido apenas como intermediário de contato a pedido de um amigo, sem conhecer detalhes do negócio e sem que nenhuma negociação prosperasse. Asseverou categoricamente jamais ter recebido qualquer centavo ou vantagem financeira do banqueiro ("não houve nenhum contrato fechado, nunca recebi nenhum centavo dele"). Seus defensores reiteraram que o deputado não participou de negociações formais e que o contato ocorreu no exercício da advocacia de seu ex-assessor.

Thiago Rodrigues de Faria (Advogado e ex-assessor parlamentar): Confirmou sua atuação profissional e jurídica no setor minerário. Declarou que a lavra da Topázio Imperial estava disponível no mercado e que atuou exclusivamente na condição de advogado, sem qualquer vínculo com sua função pública no gabinete parlamentar. Rechaçou participação em esquemas ilegais e ressaltou que nunca foi chamado a depor pela Polícia Federal sobre o caso. Afirmou que as tratativas com o grupo de Vorcaro foram encerradas sem desfecho comercial.

Daniel Vorcaro e Banco Master: Procurados a respeito das gravações e das negociações sobre o ativo minerário da Topázio Imperial e a Barragem de Água Fria em Ouro Preto, não se manifestaram oficialmente.

João Alberto Paixão Lages (Investigado / ex-deputado): Em depoimento relativo a mensagens interceptadas pela investigação, justificou ter enviado comunicações sob alegação de estar sofrendo pressões de associados da entidade que presidia.

Associação Ambiental e Cultural Zeladoria do Planeta: Em nota oficial, negou figurar como alvo da operação policial, afirmou desconhecer citações sobre repasses financeiros de R$5 mil. Fernando Benício foi indiciado pela Polícia Federal.
 

Cúpula da FEAM, IEF e ANM (Lirriet Libório, Rodrigo Franco, Vítor Salum, Arthur Delfim, Breno Lasmar, Fernando Baliani e Caio Seabra): Foram indiciados formalmente pela Polícia Federal sob suspeita de integrarem organização criminosa, corrupção e fraudes em processos ambientais e regulatórios. A Polícia Federal ressaltou que as conclusões do relatório indicam elementos de autoria e materialidade em tese, sem antecipação de juízo definitivo de culpa, permanecendo garantido o direito de manifestação de suas defesas.

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